segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Comportamento de compensação (ou como seu exercício sabota a sua dieta)


Há algumas postagens, estamos discutindo os efeitos das dietas e do exercício sobre a perda de peso para o emagrecimento (você pode acessar as postagens antigas clicando aqui, aqui, aqui e aqui). Se você está acompanhando a série, deve se lembrar que já falamos de dados que mostram que a dieta (ou seja, fechar a boca) é muito mais eficiente para emagrecer que o exercício.

A verdade é que a resposta que as pessoas têm ao exercício é muito variável: enquanto algumas pessoas perdem o peso esperado para a quantidade de atividade feita, a grande maioria perde menos peso do que os cálculos previam (e algumas chegam a engordar). Isso leva a dois problemas para o tratamento da obesidade. Primeiro, a nível pessoal, quando as pessoas se decepcionam com os poucos resultados e abandonam a academia, o que é péssimo para a saúde, visto que o exercício físico ajuda no tratamento de doenças, como diabetes, mesmo quando não há emagrecimento. E segundo, porque sem entender como algumas pessoas perdem peso e outras não, não podemos recomendar exercícios e tratamentos específicos para cada indivíduo.

Assim, a Ciência divide as pessoas em dois grupos: os que respondem ao exercício e os que não respondem. E a principal pergunta a ser respondida é qual é a diferença entre elas.

Em 2012, um grupo de pesquisadores reanalisou os dados de 15 estudos já publicados buscando essa resposta. Em resumo, eles chegaram a duas conclusões. O primeiro motivo que leve algumas pessoas a não responder ao exercício como esperado não está relacionado ao gasto energético do exercício, mas é uma consequência dele: parte das pessoas come mais depois da academia. Isso faz com que o emagrecimento seja menor que o esperado, já que o exercício sabota a dieta. O segundo motivo parece independer da vontade das pessoas: o corpo diminui o seu metabolismo para compensar o gasto de energia do exercício, e aí a perda de peso também é menor que a esperada.

Mas o gasto de energia depois do exercício também parece ter um componente comportamental. Em 2013, um grupo de cientistas francês comparou o perfil de atividade física de adolescentes obesos durante e depois do exercício. O experimento feito foi o seguinte: os adolescentes tinham a sua taxa de atividade física medida durante dois dias inteiros; e em um dia eles faziam um exercício intenso pela manhã e no outro mantinham a sua rotina normal. Os adolescentes obesos reduziam as suas atividades normais depois da manhã do exercício. Com isso, o gasto de calorias totais no dia de descanso e no dia de exercício era igual. Ou seja, o exercício seria inútil para o emagrecimento.

Um resultado semelhante foi visto por pesquisadores brasileiros em adolescentes acima do peso de uma escola em Niterói. Os adolescentes foram acompanhados por uma semana depois do exercício e, embora nos dois primeiros dias o gasto de energia tenha sido maior, a atividade física foi menor a partir do quarto dia.

Esse fenômeno, de comer mais e ficar mais tempo no sofá depois da academia, é chamado de comportamento compensatório e é um dos responsáveis por fazer com que o exercício acabe por não ajudar muito na perda de peso. Felizmente, com força de vontade e policiamento pessoal, é possível reduzir os seus efeitos para melhor os resultados da academia. Mas, infelizmente, ele não é o único responsável e não temos muito o que fazer quando nosso corpo resolve economizar calorias. E um spoiler: fazer mais exercício não vai resolver o problema.

Referências

MELANSON, E. L. et al. Resistance to exercise-induced weight loss: Compensatory behavioral adaptations. Medicine and Science in Sports and Exercise, v. 45, n. 8, p. 1600–1609, 2013.

PARAVIDINO, V. B. et al. Effect of Exercise Intensity on Spontaneous Physical Activity Energy Expenditure in Overweight Boys: A Crossover Study. PloS one, v. 11, n. 1, p. e0147141, 2016.

THIVEL, D. et al. Is there spontaneous energy expenditure compensation in response to intensive exercise in obese youth? Pediatric Obesity, v. 9, n. 2, p. 147–154, 2013. 
 

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