quarta-feira, 12 de abril de 2017

Exercício (quase) não emagrece, mas ainda assim é bom para a saúde


Em uma postagem anterior, eu discuti alguns dados científicos obtidos com o estudo de integrantes da tribo Hadza na Tanzânia, que mostraram que fazer muito exercício não significa gastar mais energia. E terminei fazendo uma provocação: “o que é mais importante para emagrecer: dieta ou academia?”

Alguns grupos de cientistas tiveram o trabalho de fazer um extenso levantamento de pesquisas científicas publicadas para tentar responder essa pergunta. Alguns desses levantamentos são chamados de meta-análises e permite juntar resultados de diferentes pesquisas para obter conclusões mais concretas.

Em 2007, pesquisadores dos Estados Unidos analisaram o que se sabia sobre os efeitos de exercícios moderados, como uma caminhada de uma hora ou uma volta de bike, na saúde. Os resultados mostraram que pessoas que fazem exercício têm 20 % menos risco de ter diabetes, independente do peso delas. Ou seja, emagrecendo ou não, o exercício faz bem para a saúde (JEON et al., 2007).

Um ano depois, outros cientistas americanos analisaram os dados do Registro do Controle Nacional de Peso dos Estados Unidos. Esse registro é interessante porque só pode entrar no grupo pessoas que perderam pelo menos 14 kg e mantiveram esse peso por pelo menos um ano. Além disso, esse registro existe há mais de 20 anos. Isso permite comparar dados de diferentes épocas. Os pesquisadores viram que 25 % das pessoas registradas fazem pouco exercício. Ou seja, parte significativa das pessoas não dependeu de exercício para perder ou manter o peso. Os dados também mostraram que quem faz mais exercício, perde mais peso. Mas a diferença é pequena: quem faz exercício muito intenso é, em média, só quatro quilos mais magro do quem faz pouco exercício. Para a manutenção da perda de peso, o exercício não é significativo: fazendo muito ou pouco, as pessoas conseguem se manter mais magras. Os cientistas também compararam os dados de diferentes épocas, de 1993 a 1996 com de 2001 a 2004. Embora as pessoas que entraram no registro nos anos 2000 serem, em média, três quilos mais magras que as dos anos 1990, ambos os grupos faziam a mesma quantidade de exercício. Esses resultados indicam que a quantidade de exercício feita tem pouca influência sobre o peso das pessoas (CATENACCI et al., 2008).

Em 2009, cientistas australianos fizeram a maior análise de dados sobre os efeitos do exercício sobre a saúde, comparando diversas situações. Pessoas que faziam exercício tinham em média dois quilos a menos que pessoas que não faziam. Além disso, tinham pressão sanguínea menor, menos triglicerídeos e glicose no sangue, e mais HDL (o “colesterol bom”). Mas as pessoas que faziam dieta tinham quase quatro quilos a menos do que as pessoas que não faziam, além de pressão e colesterol total mais baixo. Isso indica que a dieta é mais eficiente na perda de peso que o exercício, mas o exercício é capaz de melhorar a saúde do indivíduo de modo geral. Depois os pesquisadores compararam pessoas que faziam só dieta com as que juntavam dieta e exercício. Os resultados mostraram as que faziam as duas coisas eram só 600 gramas mais magras; já os parâmetros de saúde (pressão, colesterol, triglicerídeos e glicose) não mudaram. Em seguida, os cientistas olharam para a intensidade do exercício, comparando pessoas que fazem exercício leve e exercício intenso. Quando os dois grupos fazem também dieta, não existe nenhuma diferença: exercício leve ou intenso tem os mesmos efeitos. Mas quando as pessoas não fazem dieta junto, o exercício intenso leva a uma perda de peso maior (1,5 kg) e uma redução na glicose do sangue. Em conclusão, a dieta é mais importante para o emagrecimento, mas o exercício também é bom para uma vida mais saudável (SHAW et al., 2009).

Mais recentemente, um grupo de pesquisadores alemão analisou dados mais novos e chegaram a conclusões similares. O exercício leva à prevenção de doenças do coração (como infarto e derrame), de diabetes do tipo 2 (independente do peso da pessoa), e de demência e Mal de Alzheimer. Mas a relação entre exercício e perda de peso é mais fraca (REINER et al., 2013).

Todos os dados apresentados apontam na mesma direção: se você quer emagrecer, invista na dieta. Mas eu não vou abandonar minhas voltas de bicicleta em torno do Maracanã, na tentativa de afastar de mim o diabetes, infarto e Alzheimer.

Referências

CATENACCI, V. A. et al. Physical activity patterns in the National Weight Control Registry. Obesity, v. 16, n. 1, p. 153–161, 2008.

JEON, C. Y. et al. Physical activity of moderate intensity and risk of type 2 diabetes: A systematic review. Diabetes Care, v. 30, n. 3, p. 744–752, 2007.

REINER, M. et al. Long-term health benefits of physical activity – a systematic review of longitudinal studies. BMC Public Health, v. 13, p. 813, 2013.

SHAW, K. A. et al. Exercise for overweight or obesity. Cochrane Database of Systematic Reviews, n. 4, p. CD003817, 2009.

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