quarta-feira, 31 de maio de 2017

Cirrose hepática alcoólica é uma doença...fúngica??


Você com certeza já ouviu a frase ‘’beba com moderação’’. Pois é, ela nunca foi tão importante. O número de pessoas com doença no fígado causada por excesso de bebida alcoólica, chamada de cirrose hepática alcoólica, tem crescido nos últimos anos. Sempre se pensou que o álcool por si seria o causador desta doença. Entretanto, recentemente, seres vivos que vivem dentro de nós tem recebido muita atenção: os microorganismos. Estamos em um casamento com diferentes bactérias e fungos, desde o nosso nascimento até a nossa morte (podemos dar nome a esse casamento – mutualismo ou comensalismo). Como em um verdadeiro casamento, estamos juntos ‘’na saúde e na doença’’. Mas qual o papel desses microorganismos na doença? Especialmente a cirrose hepática alcoólica?

Cientistas de várias partes do mundo descobriram que um grupo específico de microorganismos participa do desenvolvimento desta doença: os fungos! Usando camundongos como modelo para estudar o envolvimento de fungos na cirrose hepática alcoólica, os cientistas observaram que há uma presença maior de fungos no intestino de animais que ingerem álcool em excesso (isso também foi visto em seres humanos!). Mais do que isso, espécies de fungos diferentes começam a aparecer (esse processo é chamado disbiose). Com o surgimento de fungos ‘’estranhos’’, o epitélio intestinal é danificado, permitindo a passagem de uma substância da parede fúngica para nossa circulação, chamada de β-glucana. Essa substância vai parar no fígado e lá ativa células de defesa do corpo (chamadas de células de Kupffer ou macrófagos residentes), levando a inflamação e a dano no fígado. Foi observado que ao tratar camundongos que ingeriam álcool em excesso com um medicamento antifúngico, os sinais de dano eram diminuídos.

Os pesquisadores são ousados ao propor o uso de antifúngicos orais para evitar manifestações clínicas da cirrose hepática alcoólica. Isso, em longo prazo, pode levar ao quadro de resistência aos antifúngicos, podendo causar possíveis ‘’superinfecções’’. Entretanto, essa descoberta sem dúvida pode permitir a criação de novas formas de tratar essa doença. Até lá, quem sabe você não para de beber em excesso? Os fungos do seu intestino e seu fígado agradecem (e muito!).

Referência:

Yang A.M. et al, Intestinal fungi contribute to development of alcoholic liver disease, The Journal of Clinical Investigation, 2017.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Gastamos a maior parte da nossa energia só para ficarmos vivos


Se você pegar qualquer embalagem de alimento na sua dispensa, vai encontrar uma tabela de valores nutricionais impressa. Indicada com um asterisco, aparece a seguinte frase: “% valores diários de referência com base em uma dieta de 2.000 (ou 2.500) kcal”. Mas de onde surgiu esse valor?

O quanto uma pessoa gasta de energia (e assim o quanto de energia precisa ser reposta pela comida) já foi medido em diversos estudos, até se obter um valor médio e geral. Isso pode ser feito de algumas formas. A primeira, mais antiga, era feita através da medida de quanto oxigênio uma pessoa usa. Mas essa forma era um pouco restrita porque a pessoa estudada precisava ficar ligada aos aparelhos de medida no laboratório, o que tornava a medida bem diferente da realidade do mundo lá fora. Mas medida de consumo de oxigênio ainda é bem útil para se medir o gasto de energia no metabolismo basal (ou seja, a energia que gastamos sem fazer nada, apenas vivendo): a pessoa faz um jejum de 12 horas (igual para exame de sangue) e fica sentada, quietinha, numa sala a 28 °C. Nessas condições, o único gasto de energia que você tem é para viver.

Outra forma de medir o quanto gastamos de energia é usando água duplamente marcada. Que raios é isso? Bem, a água é feita de hidrogênio e oxigênio, H2O, certo? Mas existem diversos tipos de hidrogênio e de oxigênio, um muito mais comum e outros muito mais raros. O hidrogênio mais comum (1H) é o prótio, e um dos raros é o deutério (2H). O oxigênio mais comum é o 16O, e um dos raros é o 18O. Assim, a água no nosso corpo é basicamente 1H216O, e a água duplamente marcada é 2H218O. Como a água duplamente marcada é usada então? A pessoa vai ao laboratório e coletam um pouco de sangue dela. Depois ela toma um corpo com água duplamente marcada, e vai para casa viver a vida. De tempos em tempos, ele tem que coletar alguma amostra (pode ser sangue, saliva, urina...). Nessas amostras é medido o quanto de 2H e de 18O foi perdido nesse tempo. O H é perdido na água, que deixa o corpo pela respiração, suor, urina, enquanto o O é perdido na água e no gás carbônico que sai na respiração. Com essas informações, é possível calcular o quanto de gás carbônico o corpo produziu nesse tempo, e isso é diretamente ligado à quantidade de energia gasta. Dessa forma é possível saber qual é o gasto de energia total de uma pessoa.

Se nós diminuirmos o gasto de energia para ficar vivo do gasto de energia total, vamos obter o quanto de energia gastamos com atividade física (temos que descontar também o quanto gastamos de energia para digerir o que comemos, mas isso é estimado em 10 % do total). E o quanto temos de cada coisa?

De 60 % a 70 % da energia é gasta para ficarmos vivos. E esse valor é basicamente constante durante toda a vida. Não existem evidências concretas de diferenças entre etnias e o metabolismo basal também não é alterado se uma pessoa sai dos trópicos para viver em uma região temperada. Mas existe uma grande diferença entre as pessoas, que pode chegar a até 20 %, o que explica porque existem pessoas que comem feito capivaras raivosas com lombrigas e ainda assim não engordam.

Só de 20 % a 35 % da energia é gasta em atividade física diária, não necessariamente na academia, mas qualquer atividade: andar, ficar em pé, e por aí vai. Mesmo em atletas profissionais esse gasto fica abaixo de 50 % do total. Os pesquisadores descobriram que existe uma forte influência genética nesse gasto; cerca de 70 % do gasto de energia com atividade física é derivado dos seus genes (podemos considerar a existência dos “genes que dão vontade de ir para a academia” (eu não tenho nenhum)). Os valores desse gasto de energia não mudaram nos últimos 20 anos, o que mostra que a epidemia de obesidade não parece estar relacionada a uma redução no gasto de energia com atividade física. Também não existe diferença entre o mundo desenvolvido e em desenvolvimento, novamente mostrando que o gasto de energia não é responsável pelo maior número de pessoas obesas nos países ricos. Além disso, se compararmos nosso gasto de energia com mamíferos selvagens, vamos ver que eles são bem parecidos. Isso indica que não foram os avanços tecnológicos que nos deixaram gordos.

Então, se o gasto de energia não é responsável pela obesidade, quem é? A nossa alimentação, rica em calorias, açúcar e gordura.

Referências

SHETTY, P. Energy requirements of adults. Public Health Nutrition, v. 8, n. 7A, p. 994–1009, 2005.

WESTERTERP, K. R. Physical activity and physical activity induced energy expenditure in humans: Measurement, determinants, and effects. Frontiers in Physiology, v. 4, p. 90, 2013.