segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Uma relação entre comida gordurosa e câncer


Se você, assim como eu, está acima do peso, precisa se preocupar com a sua saúde.

(Como eu sei se estou acima do peso? É simples: você vai precisar de uma balança e uma fita métrica. Se pese e meça a sua altura. Multiplique a sua altura em metros por ela mesmo. Agora divida o seu peso em quilos pelo valor da altura x altura. Pronto, esse é o seu índice de massa corporal ou IMC. Se ele está acima de 25 kg/m2, você está sobrepesado (gordinho, digamos). Se ele está acima de 30 kg/m2, você está obeso!)

Pessoas sobrepesadas e obesas têm um risco maior de ter várias doenças, como diabetes, pressão alta, doenças do coração e até câncer. Vários estudos já mostraram relação entre a obesidade e câncer de intestino, tanto em ratos quanto pessoas. Porém, como a obesidade causava o câncer ainda era desconhecido.

Para explorar essa relação, pesquisadores americanos estudaram o intestino de camundongos obesos. Os resultados foram publicados esse ano na revista Nature.

Para engordar os animais, os cientistas os alimentaram como uma ração gordurosa (basicamente mais da metade dela era uma espécie de manteiga) por nove meses. Isso é o suficiente para os camundongos ficarem obesos, diabéticos, hipertensos e tudo mais. Quando os pesquisadores olharam o intestino, eles encontraram mais células tronco (ou seja, aquelas células mais capazes de se dividir e gerar células novas e mais especializadas). Além disso, essas células estavam se dividido mais rápido que as dos animais magros, crescendo mais em culturas no laboratório.

O que causou isso? Para responder, os cientistas cultivaram as células tronco do intestino de camundongos magros na presença de gordura e elas começaram a se comportar como as células dos animais obesos. Ou seja, é a gordura da alimentação que deixa as células mais ativas.

Mas como a gordura é capaz de fazer isso? Os pesquisadores analisaram quais genes eram ativados nas células troncos pela dieta rica em gordura e observaram um perfil interessante: muitos genes estavam relacionados com uma proteína chamada PPARδ (letra grega delta). Então, os cientistas trataram as células tronco de intestinos de camundongos magros com um composto ativador do PPARδ e, novamente, elas se comportaram como células do intestino de animais obesos. Isso indica que a gordura da alimentação afeta as células através dessa proteína.

E onde entra o câncer nessa história? Tanto as células tronco de camundongos obesos quanto as tratadas com o ativador de PPARδ tinham uma maior atividade de uma proteína chamada β(beta)-catenina. Essa proteína, quando desregulada, está presente em cerca de 10 % dos tumores. Além disso, o ativador de PPARδ foi capaz de disparar o início de tumores nas células intestinais, sendo elas tronco ou não.

Um detalhe é importante: quando os pesquisadores estudaram um camundongo mutante que fica obeso mesmo comendo uma ração normal (ele nunca se sente saciado, então ele come sem parar), eles não viram esses efeitos. Ou seja, o problema não parece ser a obesidade em si, mas sim a alimentação com muita gordura. Em conclusão, os pesquisadores mostram que a gordura da alimentação pode ter uma relação direta com o câncer de intestino. Isso nos leva a dois pensamentos interessantes. Primeiro, a descoberta de como essa relação funciona em um nível molecular vai ajudar no desenvolvimento de novos tipos de tratamento e prevenção para o câncer de intestino. E, depois, algumas dietas para emagrecer, como a dieta Atkins ou a dieta paleolítica, são baseadas em uma grande redução no consumo de açúcares e um correspondente aumento no consumo de gorduras e proteínas, algo que pode ser próximo à dieta dada aos animais nesse estudo. Será que essas dietas podem induzir o surgimento de câncer mesmo em pessoas não obesas?

Referência

BEYAZ, S. et al. High-fat diet enhances stemness and tumorigenicity of intestinal progenitors. Nature, v. 531, n. 7592, p. 53–58, 2016.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

C8H10N4O2 #4 - Professor Heitor A. de Paula Neto

Uma entrevista com Dr. Heitor A. de Paula Neto, professor da Faculdade de Farmácia da UFRJ. Conversamos sobre o curso de Veterinária, sobre suas pesquisas em torno do metabolismo e do sistema de defesa do corpo e sobre os futuros pesquisadores.


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Glifosato causa câncer?


Vocês devem ter esbarado pela Internet com postagens dizendo que o herbicida glifosato causa um monte de problemas de saúde, principalmente câncer. Devem ter visto também alguns abaixo-assinados virtuais pedindo a proibição da venda do veneno. Mas como funciona o glifosato e quais são as evidências científicas que correlacionam o herbicida com câncer?

O glifosato foi desenvolvido em 1970 e lançado no mercado quatro anos depois. A última patente do composto expirou no ano 2000 e agora ele é vendido por diversas empresas pelo mundo. O herbicida impede a produção de alguns aminoácidos (moléculas usadas na montagem das proteínas) na planta, que morre. O glifosato mata apenas plantas porque apenas elas têm a capacidade de produzir esses aminoácidos específicos, enquanto outros organismos não. Assim, o glifosato é letal apenas contra vegetais. Com o desenvolvimento de plantas transgênicas resistentes ao veneno, o uso do glifosato aumentou rapidamente e hoje o produto vende algo em torno de seis bilhões de dólares por ano.

Bem, e qual é a relação entre o glifosato e a incidência de câncer? Primeiro, quero deixar claro que eu apenas levantei as informações sobre câncer e não pesquisei sobre outras doenças (dizem que o herbicida está relacionado a autismo em crianças, mas não boto minha mão no fogo sobre isso). Também não estou levando em conta os danos ambientais e os desequilíbrios ecológicos causados pelo uso indiscriminado de pesticidas. Quero discutir apenas os dados sobre glifosato e câncer.

Dentro dos laboratórios, os dados sobre os efeitos do glifosato ainda são contraditórios. Por exemplo, o herbicida induz o crescimento de células de câncer de mama em cultura (THONGPRAKAISANG et al., 2013), embora não tenham sido realizados experimentos em animais. Por outro lado, o glifosato e seus derivados também são capazes de inibir o crescimento de células de câncer de próstata em cultura e poderia ser pensado como fonte para novos tratamentos no futuro (LI et al., 2013).

E no mundo real? Em 2005, um grupo de pesquisadores fez uma análise epidemiológica em agricultores nos Estados Unidos. Eles não encontraram evidências de uma associação entre a exposição ao glifosato e a incidência geral de câncer na população (DE ROOS et al., 2005). Os dados indicaram uma possível relação com a incidência de mieloma múltiplo, mas isso precisaria ser confirmado posteriormente com novos dados. Quase uma década depois, um novo estudo analisou dados de mais de 20 trabalhos e novamente não foi encontrada uma associação entre glifosato e câncer (MINK et al., 2012). Porém, esse trabalho apresenta um grande conflito de interesse, já que foi financiado pela empresa criadora do glifosato (que obviamente tem todo o interesse em provar que o herbicida não faz mal).

Recentemente, um grande grupo de especialistas trabalhando para a Organização Mundial de Saúde definiu o glifosato como “provavelmente cancerígeno”, com “evidências limitadas em humanos” (PORTIER et al., 2016). Esse relatório causou um grande reboliço na mídia não especializada e, em seguida, na população. Na comunidade científica, o relatório da OMS causou polêmica e foi considerado errado por parte dos cientistas. O relatório foi acusado de estar “errado” e de ser “um resumo incompleto e falho das evidências científicas” (TARONE, 2016).

Com os dados disponíveis, ainda é muito difícil definir se o glifosato é um risco para a saúde. Existem poucos dados epidemiológicos longos e financiados de modo independente que permitam uma conclusão segura. O desenvolvimento de plantas transgênicas resistentes combinado com o uso de pesticida foi importante para a revolução na produção agrícola de grãos. Na minha humilde opinião, proibir o uso do glifosato com base nas atuais evidências científicas de associação do herbicida com a incidência de câncer me parece um retrocesso tecnológico.

Referências:

DE ROOS, A. J. et al. Cancer incidence among glyphosate-exposed pesticide applicators in the Agricultural Health Study. Environmental Health Perspectives, v. 113, n. 1, p. 49–54, 2005.

LI, Q. et al. Glyphosate and AMPA inhibit cancer cell growth through inhibiting intracellular glycine synthesis. Drug Design, Development and Therapy, v. 7, p. 635–643, 2013.

MINK, P. J. et al. Epidemiologic studies of glyphosate and cancer: A review. Regulatory Toxicology and Pharmacology, v. 63, n. 3, p. 440–452, 2012.

PORTIER, C. J. et al. Differences in the carcinogenic evaluation of glyphosate between the International Agency for Research on Cancer (IARC) and the European Food Safety Authority (EFSA). Journal of Epidemiology and Community Health, v. 70, n. 8, p. 741–746, 2016.

TARONE, R. E. On the International Agency for Research on Cancer classification of glyphosate as a probable human carcinogen. European Journal of Cancer Prevention, p. DOI:10.1097/CEJ.0000000000000289, 2016.

THONGPRAKAISANG, S. et al. Glyphosate induces human breast cancer cells growth via estrogen receptors. Food and Chemical Toxicology, v. 59, p. 129–136, 2013.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Nem tudo que é natural faz bem


Pode parecer óbvio, mas muita gente usa a falácia de apelo à natureza para justificar o uso de ervas medicinais ou outros produtos naturais, dizendo que já que é natural é bom. Gosto de contra argumentar dizendo que comigo-ninguém-pode e veneno de escorpião também são naturais, mas matam.

Nos últimos anos, houve um grande aumento do consumo de suplementos alimentares e fitoterápicos, e a indústria do setor bate recorde de lucros ano após ano. Estima-se que 6 % da população da cidade de São Paulo usa algum tipo de suplemento alimentar, mas esse número pode chegar a 50 % nos Estados Unidos. Muitas pessoas usam esses produtos sem orientação profissional com base no “é natural então é bom” ou “funcionou com meu colega de academia”, e nada pode ser mais perigoso que isso. Os levantamentos de dados mostram que de 2 % a 16 % dos casos de problemas no fígado causados por consumo de remédios ou outros compostos são devido ao uso de suplementos alimentares.

Parte dos problemas pode ser a forma como os produtos são registrados. Quando são registrados sob a forma de medicamento, eles são estritamente regulados e precisam mostrar que funcionam para o tratamento que propõem e que são seguros para o consumo. E depois de liberados, continuam sobre vigilância caso algo dê errado. Quando são registrados como alimentos funcionais, o controle é bem mais leve. O produto não precisa provar que realmente funciona e não existem testes extensos sobre os efeitos sobre a saúde. E a grande maioria dos suplementos alimentares é registrada como alimento. (Atualização 16/11/2016: fui alertado pela ANVISA que a agência regula a venda de alimentos funcionais de modo similar a medicamentos; ou seja, os produtos precisam de provas científicas de que funcionam e de que são seguros para o consumo. Porém, a legislação americana é mais frouxa e não tem esse tipo de regulação, e, assim, esses suplementos podem ser vendido livremente. Muitos suplementos importados vendidos aqui no Brasil não tem registro na ANVISA e são ilegais.)

Resultado: os casos de problemas de saúde, principalmente no fígado, causados pelo uso de suplementos alimentares vem aumentando.

O chá verde é usado pelas pessoas pelas suas ações antioxidantes e de aceleração do metabolismo. O consumo desse chá é considerado seguro. Porém, também são vendidas cápsulas com extrato concentrado de Camellia sinensis (nome científico da planta de onde se faz o chá) e, assim, ela não parece ser tão segura. Foram relatados mais de 30 casos de danos no fígado causados pelo consumo do extrato de chá verde, incluindo uma morte e alguns transplantes. Não se sabe a causa dessa reação em algumas pessoas, mas parece que alguns componentes do extrato podem causar um estresse oxidativo e dano no fígado, especialmente durante um jejum prolongado. Um produto feito com 80 % de extrato da planta, contendo altas concentrações de cafeína e compostos chamados de polifenois chegou a ser retirado do mercado espanhol.

Outro suplemento alimentar muito consumido é a gordura chamada ômega 6, com a promessa de diminuir o peso e melhores os níveis de colesterol e triglicerídeos no sangue. Embora sejam raros, já foram descritos 3 casos de danos ao fígado causados pelo consumo excessivo de ômega 6. Uma pessoa teve que ser transplantada. E as outras duas melhoraram de saúde quando pararam de consumir as cápsulas.

Um suplemento menos famoso é o ácido úsnico, que é purificado de liquens, uma associação simbiótica de algas e fungos. O ácido úsnico é usado como um antibiótico natural e também para perda de peso, embora não existam provas científicas claras disso. Certo é que o ácido úsnico está associado a pelo menos sete casos de problemas no fígado. Um produto contendo a substância foi inclusive retirado do mercado americano.

Outros exemplos incluem o extrato chinês Ma Huang, feito com plantas do gênero Ephedra, que pode causar aumento de pressão, insônia e problemas intestinais (uso está proibido nos Estados Unidos), e extratos da fruta Garcinia cambogia (a fruta de emagrecimento das celebridades) que foram relacionadas a problemas no fígado.

Ok, então. Mas quanto mais vitamina, melhor, né? Também não. Os efeitos do excesso do consumo de vitaminas, chamados hipervitaminoses, são descritos há muito tempo. Por exemplo, o excesso de vitamina A pode causar cansaço, desconforto estomacal e anorexia, entre outras coisas.

O que tiramos disso tudo? Sempre use suplementos alimentares com acompanhamento profissional e aumente a frequência de visitas a um clínico geral para uma avaliação geral de saúde. Se por algum motivo, você tiver algum tipo de sensibilidade a qualquer composto do suplemento usado, é melhor descobrir rápido.

Referências

BRUNACIO, K. H. et al. Uso de suplementos dietéticos entre residentes do Município de São Paulo, Brasil. Cadernos de Saúde Pública, v. 29, n. 7, p. 1467–1472, 2013.
GARCÍA-CORTÉS, M. et al. Hepatotoxicity by Dietary Supplements: A Tabular Listing and Clinical Characteristics. International Journal of Molecular Sciences, v. 17, n. 4, p. 537, 2016.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Socializar diminui o estresse?



Frequentemente, quando se trata de saúde, o papel de interações sociais é pouco estudado. No senso comum, vemos alguma conexão. Quando estamos muito estressados na vida profissional, pessoal ou afetiva, nada melhor que socializar com os amigos, certo? Sentimo-nos melhores, mais dispostos, menos estressados. Mas o que a ciência diz sobre isso?

Em setembro deste ano, uma colaboração de cientistas dos Estados Unidos, Alemanha, Uganda e Suiça demonstraram em macacos, que relações sociais afetivas atenuam tanto o estresse agudo (seu chefe pediu um relatório pra ontem, bem estressante!) quanto o estresse rotineiro. Macacos possuem relações sociais características, demonstradas por compartilhamento de comida, defesa quando um membro do seu grupo está em perigo e outros sinais de cooperação que se assemelham a relações sociais humanas, permitindo a criação de certo paralelo.

Já é sabido que nosso organismo é capaz de perceber estímulos, como situações de estresse (físico, social, psicológico), interpretar esse estímulo e gerar uma resposta através da liberação de diversos hormônios, dentre eles o cortisol. Este hormônio é conhecido por ser o ‘’hormônio do estresse’’, visto que sua liberação é aumentada em situações estressantes, e ele é o principal responsável por alguns dos sintomas associados ao estresse, como má qualidade do sono e baixa da imunidade.

Chimpanzés silvestres de uma comunidade da Uganda foram observados durante um ano, em fases distintas: Situação controle, onde o animal apenas dormia ou descansava em um lugar, parado; Situação rotineira, onde eles exerciam uma atividade comum para eles, no caso coçar/limpar outro macaco; e uma Situação de estresse agudo, onde grupos de chimpanzés rivais se encontravam e disputavam território. Durante essas 3 situações, animais foram divididos em 2 grupos: Chimpanzés que não socializavam com outros animais, e chimpanzés que interagiam socialmente de maneira positiva com outros chimpanzés. Os níveis de ‘’estresse’’ destes animais foi medido através da análise de cortisol na urina. Interessantemente, a relação social positiva foi capaz de reduzir os níveis de cortisol tanto durante estresse agudo quanto na rotina.

Níveis aumentados de cortisol cronicamente estão correlacionados com desenvolvimento de câncer, doenças cardiovasculares e depressão. Ao observarem que socializar constantemente promove o controle dos níveis de cortisol no organismo, os pesquisadores propõe que essa pode passar a ser uma recomendação de saúde pública caso os dados sejam confirmados em seres humanos. Agora já tem desculpa pra ir encontrar seus amigos: ser mentalmente e fisicamente mais saudável por diminuir o estresse!


Wittig, R.M. et. al., Social support reduces stress hormone levels in wild chimpanzees across stressful events and everyday affiliations, Nature Communications, 2016