sexta-feira, 15 de julho de 2016

Apaguem as luzes, pois nosso corpo é mesmo um relógio


Sabe aquele hábito moderno de deitar à noite na cama e ligar o celular para ver o Facebook? Ou ligar a TV e ficar assistindo até dormir? Então... isso pode estar acabando com a sua saúde.

O artigo dessa semana testou o efeito de manter animais de laboratório expostos o tempo todo a luz artificial1. A ideia foi tentar simular o que muitas pessoas passam durante muito tempo de suas vidas. Profissionais que trabalham à noite, como seguranças e profissionais de saúde plantonistas em hospitais ficam expostos constantemente a luz durante o período de escuro. E isso parece que faz um mal enorme. Os animais expostos a luz constante tiveram uma desregulação clara do seu ciclo circadiano ou, em outras palavras, do seu relógio biológico. Isso foi acompanhado de um maior ganho de peso, perda de força muscular, perda de massa óssea (um início de osteoporose), anemia e um aumento de marcadores inflamatórios no sangue.

De fato, esse trabalho vem confirmar muitos outros estudos anteriores. Análises de profissionais plantonistas revelam, por exemplo, que esses profissionais tem maior incidência de câncer2, osteoporose3 e síndrome metabólica4. Além disso, animais de laboratório com ciclo circadiano desregulado não controlam seu apetite, engordam e desenvolvem diabetes5. Em face disso, você pensa: “ainda bem que eu não dou plantão”. Mas não se iluda, pessoas “normais”, expostas - como praticamente todos nós somos - a luz artificial prolongada, apresentam também menor qualidade do sono6, aumento de peso corporal7 e predisposição à doença cardíaca7.

Interessantemente, esse estudo vem semanas depois da publicação do mais recente e moderno mapa mundial de poluição luminosa8. Segundo esse mapeamento, mais de 80% dos seres humanos estão expostos a iluminação artificial prolongada, chegando ao incrível índice de 99 % da população dos Estados Unidos e da Europa. Ou seja, estamos colocando mais um vilão, pouco considerado, na nossa lista de “venenos da modernidade”. Além do estilo de vida menos ativo, os alimentos pouco nutritivos, a lista infinita de aditivos e compostos artificiais que ingerimos todos os dias, devemos agora nos preocupar também com o tempo que ficamos expostos a luz artificial.

Para não terminarmos de maneira amedrontadora e melancólica, a boa notícia é que os animais desse estudo tiveram seus parâmetros normalizados depois de passarem algum tempo em um ciclo claro/escuro padrão de 12 horas. Resta, para nós, portanto, desligarmos nossas luzes, celulares de TVs depois das 6 da tarde e só ligarmos novamente pela manhã... #sqn.

DICIONÁRIO

Ciclo circadiano: é o nosso “relógio biológico” e se refere à sincronização de processos biológicos (como a secreção de hormônios, período de atividade e sono) com o ciclo dia e noite de 24 horas. Para isso, os organismos usam vários parâmetros, sendo a incidência de luz o principal deles.

Anemia: diminuição no número de células vermelhas do sangue.

Osteoporose: diminuição da massa óssea, muito comum em mulheres, e que predispõe a fraturas.

Síndrome metabólica: conjunto de doenças que resultam da resistência a insulina (diabetes tipo II) e que aumentam o risco de doenças cardiovasculares como aterosclerose, derrame e infarto cardíaco. Clinicamente, é a presença, no mesmo indivíduo, de pelo menos três dos cinco critérios: obesidade, hipertensão, hiperglicemia, aumento de triglicerídeos e baixo HDL (bom colesterol).

REFERÊNCIAS

1. Lucassen et al., 2016. Environmental 24-hr cycles are essential for health. Curr Biol, in press (http://dx.doi.org/10.1016/j.cub.2016.05.038)

2. Stevens et al., 2014. Breast cancer and circadian disruption from electric lighting in the modern world. CA Cancer J Clin, 64: 207.

3. Quevedo & Zuniga, 2010. Low bone mineral density in rotating-shift workers. J Clin Densitom, 13: 467.

4. Pietroiusti et al, 2010. Incidence of metabolic syndrome among nightshift healthcare workers. Occup Environ Med, 67: 54.

5. Shi et al., 2013. Circadian disruption leads to insulin resistance and obesity. Curr Biol, 23: 372.

6. Obayashi et al., 2014. Effect of exposure to evening light on sleep initiation in the elderly: a longitudinal analysis for repeated measurements in home settings. Chronobiol Int, 31: 461.

7. Gangwisch, 2014. Invited commentary: nighttime light exposure as a risk factor for obesity through disruption of circadian and circannual rhythms. Am J Epidemiol, 180: 251.

8. Falchi et al., 2016. The new world atlas of artificial night sky brightness. Sci Adv, 2: e1600377.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Melhorando a imunidade pela fé: os mecanismos celulares e moleculares do efeito placebo


Imaginem a seguinte cena: você está com uma forte dor de cabeça e alguém, de sua inteira confiança, lhe oferece um remédio dizendo que vai aliviar sua dor. Você toma o comprimido e, em questão de alguns minutos, a dor se foi. Bem... a dor se foi, mas a pergunta fica: quem disse que aquele comprimido realmente tinha um medicamento dentro? A dor passou porque o medicamento funciona ou porque você, confiando na pessoa que te deu o comprimido, criou expectativas psicológicas de que ia melhorar? Essa é a essência do “efeito placebo”.

Todo estudo de novos medicamentos precisa ter um grupo para controlar o efeito placebo, ou seja, pacientes ou voluntários que receberão um comprimido que não contém o medicamento testado - mas que tem aspecto igualzinho a ele - de forma a controlar os efeitos psicológicos (não específicos) da administração do medicamento.

Pois bem, na inclusão desse grupo placebo, muitas coisas que julgávamos eficazes no tratamento de condições clínicas se mostraram, na verdade, apenas “placebos”. Um exemplo bobo disso é quando se dá água com açúcar para acalmar alguém. Água com açúcar não acalma – pelo menos não farmacologicamente. O que a água com açúcar faz (na verdade, alguém dar água com açúcar para uma pessoa sob grande tensão) é trazer conforto e apoio, o que ajuda a acalmar – um efeito mais psicológico do que biológico de fato.

Mas como que o efeito placebo funciona? Essa é a grande pergunta do artigo de Ben-Shaanan e colaboradores, publicado essa semana na prestigiada revista científica Nature Medicine1. Sabendo que o efeito placebo envolve a ativação de áreas do cérebro ligadas ao sistema de recompensa, esse grupo de Israel desenvolveu uma técnica bastante sofisticada para ativar o sistema de recompensa em camundongos, numa tentativa de recapitular o efeito placebo nesses animais. Surpreendentemente, a ativação do sistema de recompensa levou a um aumento de vários parâmetros de eficiência do sistema de defesa desses animais: eles, por exemplo, passaram a eliminar bactérias de forma mais eficiente e produzir mais anticorpos.

Ou seja, esse trabalho mostra que a ativação do sistema de recompensa eleva nossas defesas. Embora todo o foco dos autores tenha sido dado ao “efeito placebo”, eu, particular e humildemente, acho que supor que ativar artificialmente o sistema de recompensa é o mesmo que induzir o efeito placebo em animais é extrapolar um pouco as limitações do modelo experimental e exagerar na interpretação dos resultados. No entanto, a meu ver, abrem-se questões mais abrangentes (e, para mim, mais interessantes), tais como: qual o efeito de coisas que sabidamente ativam o sistema de recompensa, sobre nossa imunidade? Será que esse mecanismo não está por trás das nossas concepções intuitivas de que pessoas mais felizes ou pessoas que rezam com fé tem suas defesas melhoradas e, por isso, tendem a adoecer menos2,3? Por outro lado, será que a inibição do sistema de recompensa, por depressão, estresse ou dependência química, diminuiria nossa imunidade4,5? Como todo bom trabalho científico, esse responde uma pergunta e levanta outras tantas...

DICIONÁRIO

Sistema de recompensa: áreas do cérebro que estão coordenadas e que são ativadas por estímulos ligados ao prazer, à motivação e à boa expectativa. O nome “recompensa” vem das primeiras descrições desse comportamento em animais que eram treinados a esperar uma recompensa agradável (uma guloseima, por exemplo) associada a um estímulo qualquer, como o tocar de um sino ou algum outro sinal6.

REFERÊNCIAS

1Ben-Shaanan et al., 2016. Activation of the reward system boosts innate and adaptive immunity. Nat Med. advance online publication (publicado online em 04 de julho de 2016).

2Barak, 2006. The immune system and happiness. Autoimmun Rev. 5: 523.

3Chanda & Levitin, 2013. The neurochemistry of music. Trends Cogn Sci. 17: 179.

4Dhabhar, 2013. Psychological stress and immunoprotection versus immunopathology in the skin. Clin Dermatol. 31: 18.

5Blume et al., 2011. Immune suppression and immune activation in depression. Brain Behav Immun. 25: 221.

6Everitt et al., 1999. Associative processes in addiction and reward: the role of amygdala-ventral striatal subsystems. Ann N Y Acad Sci. 877: 412.