quinta-feira, 24 de março de 2016

Suco de melão São Caetano também parece não curar o diabetes


Se você está chegando agora, essa é a segunda postagem de uma série de três sobre as propriedades do melão São Caetano. Para ler a primeira, clique aqui.

Começando: uma busca rápida no Google mostra vários resultados com informações sobre como o melão São Caetano pode ser usado para curar o diabetes, incluindo receitas de chás e outras coisas. Antes de investigar se a planta realmente tem efeito sobre essa doença, cabe uma rápida explicação sobre o que é o diabetes.

O diabetes é conhecido desde a Antiguidade, como uma síndrome (um conjunto de sintomas) que incluí perda de peso, excesso de xixi, e excesso de sede e de fome. O próprio nome da doença vem do latim; os médicos a chamaram de diabetes mellitus. Diabetes deriva da palavra grega para sifão ou da ação “passar através”, em uma referência a grande quantidade de urina produzida pelo paciente. Mellitus significa uma coisa doce. De fato, o xixi dos pacientes diabéticos é doce, e provar a urina dos doentes era a forma mais fácil de diagnosticar o diabetes. E por que os doentes fazer tanto xixi e um xixi doce? Porque a quantidade de açúcar no sangue é tão alta que o corpo joga o excesso fora pelos rins, que por sua vez produzem muita urina para poder diluir tanto açúcar. Como os doentes fazer muito xixi, perdem muita água, o que leva o aumento da sede.

A clínica hoje define um paciente como diabético se a concentração de glicose (o açúcar) no sangue repetidas vezes se encontrar acima de 100 mg/dL. Mas por que o açúcar no sangue fica tão alto? Isso depende do tipo de diabetes, que pode ser classificado como tipo I ou tipo II.

O diabetes do tipo I ocorre principalmente em crianças, quando o pâncreas perde ou tem a sua capacidade de fazer insulina muito diminuída. A insulina é o hormônio produzido pelas chamadas células β, que indica para diversas células que elas podem pegar açúcar do sangue, porque ele está sobrando. Na criança diabética, sem esse hormônio, as células não pegam o açúcar do sangue e ele acaba se acumulando lá. E como o corpo não consegue usar esse açúcar, ele indica para o cérebro falta de nutrientes, o que é traduzido como fome. Por isso, os pacientes diabéticos sentem fome em excesso. O tratamento hoje é simples e consiste nas injeções de insulina, produzida em laboratórios, programadas de acordo com as refeições.

Já o diabetes do tipo II atinge principalmente adultos, na grande parte das vezes obesos. Nesse caso, o problema não é a falta de insulina (na verdade, tem insulina até demais), mas sim a sensibilidade (ou a capacidade de “enxergar”) à insulina das células. Na obesidade, é comum que a capacidade do tecido adiposo (cujas células têm como função básica acumular gordura) de engordar chegue ao máximo. Com isso a gordura que “sobra” acaba se acumulando em outros órgãos, como fígado e músculos. Porém, como esses órgãos não são preparados para acumular gordura, ela acaba sendo tóxica e atrapalham o funcionamento das células. Um dos efeitos causados é a redução da capacidade das células de sentir a insulina. Assim, embora o pâncreas produza muita insulina, as células não “veem” o hormônio e não pegam o açúcar do sangue. O tratamento é mais complexo, e envolve perda de peso, exercício físico e medicamentos. Em pacientes com obesidade e diabetes avançados, a gordura pode se acumular até no pâncreas e atrapalhar a produção da insulina, fazendo com que a doença evolua para uma mistura dos tipos I e II. Nesse caso, o doente também vai precisar de doses altas de insulina.

OK, mas e o melão? Infelizmente, não há nada que prove que o consumo da planta seja capaz de combater o diabetes em humanos, embora existam diversos trabalhos com roedores. Mais de 100 trabalhos sobre o melão São Caetano em relação com o diabetes já foram publicados.

Em 2012, pesquisadores da Malásia analisaram diversos trabalhos científicos do uso da planta para tratar o diabetes em humanos e chegaram à conclusão preliminar de que o tratamento não funciona, embora eles deixem claro que são necessários mais estudos para aumentar o número de pessoas testadas e chegar a uma resposta mais clara (OOI; YASSIN; HAMID, 2012).

Em animais, os resultados mostram que o melão São Caetano pode ajudar ou não. Em 1990, cientistas do Sri-Lanka mostraram que o tratamento de ratos com diabetes do tipo I com suco do melão não ajudou na melhora dos sintomas (KARUNANAYAKE; JEEVATHAYAPARAN; TENNEKOON, 1990). Porém, outros trabalhos mostraram que o uso da planta pode ajudar a reduzir o nível de açúcar no sangue de ratos e camundongos diabéticos (ABDOLLAHI et al., 2011; RATHI; GROVER; VATS, 2002; SARKAR; PRANAVA; MARITA, 1996; SATHISHSEKAR; SUBRAMANIAN, 2005; TRIPATHI; CHANDRA, 2009). O consumo do melão São Caetano também aumentou o consumo de glicose pelo fígado (SARKAR; PRANAVA; MARITA, 1996), corrigiu a quantidade de glicogênio (uma forma de armazenar açúcar nos órgãos) nesse mesmo órgão (RATHI; GROVER; VATS, 2002), e reduziu o estresse oxidativo (SATHISHSEKAR; SUBRAMANIAN, 2005; TRIPATHI; CHANDRA, 2009) e os danos às células β, o que ajuda na produção de insulina (ABDOLLAHI et al., 2011; SATHISHSEKAR; SUBRAMANIAN, 2005).

Em ratos alimentados com uma dieta rica em gordura, que ficam obesos e desenvolvem diabetes do tipo II como a gente, o uso do extrato da planta foi capaz de aumentar a sensibilidade dos órgãos à insulina, corrigindo em parte a doença (YANG et al., 2015). Também foi mostrado que o suco do melão traz uma melhora nos danos causados pelo excesso de açúcar aos nervos, que é uma das consequências do diabetes (AHMED et al., 2004). Outro problema comum nos pacientes diabéticos é a dificuldade de cicatrização de feridas. Em 2009, pesquisadores da Malásia estudaram a aplicação do extrato do melão sobre feridas em ratos diabéticos e verificaram que ele aumentava a capacidade de cicatrização.

Em resumo, embora o melão São Caetano tenha sido estudado em animais, os testes com humanos ainda não mostraram qualquer efeito benéfico sobre o diabetes. Porém, o seu consumo é feito há muito tempo na Ásia, sem grandes efeitos colaterais. Se você quiser usar planta, pergunte ao seu médico antes e siga as instruções dele. E nunca substitua seus remédios prescritos por uma receita da Internet.

Referências

ABDOLLAHI, M. et al. Effects of Momordica charantia on pancreatic histopathological changes associated with streptozotocin-induced diabetes in neonatal rats. Histology and Histopathology, v. 26, n. 1, p. 13–21, 2011.

AHMED, I. et al. Beneficial effects and mechanism of action of Momordica charantia juice in the treatment of streptozotocin-induced diabetes mellitus in rat. Molecular and Cellular Biochemistry, v. 261, n. 1-2, p. 63–70, 2004.

KARUNANAYAKE, E. H.; JEEVATHAYAPARAN, S.; TENNEKOON, K. H. Effect of Momordica charantia fruit juice on streptozotocin-induced diabetes in rats. Journal of Ethnopharmacology, v. 30, n. 2, p. 199–204, 1990.

OOI, C. P.; YASSIN, Z.; HAMID, T.-A. Momordica charantia for type 2 diabetes mellitus. Cochrane Database of Systematic Reviews, v. 8, p. CD007845, 2012.

RATHI, S. S.; GROVER, J. K.; VATS, V. The effect of Momordica charantia and Mucuna pruriens in experimental diabetes and their effect on key metabolic enzymes involved in carbohydrate metabolism. Phytotherapy Research, v. 16, n. 3, p. 236–243, 2002.

SARKAR, S.; PRANAVA, M.; MARITA, R. Demonstration of the hypoglycemic action of Momordica charantia in a validated animal model of diabetes. Pharmacological Research, v. 33, n. 1, p. 1–4, 1996.

SATHISHSEKAR, D.; SUBRAMANIAN, S. Beneficial effects of Momordica charantia seeds in the treatment of STZ-induced diabetes in experimental rats. Biological & Pharmaceutical Bulletin, v. 28, n. 6, p. 978–983, 2005.

TRIPATHI, U. N.; CHANDRA, D. The plant extracts of Momordica charantia and Trigonella foenum-graecum have anti-oxidant and anti-hyperglycemic properties for cardiac tissue during diabetes mellitus. Oxidative Medicine and Cellular Longevity, v. 2, n. 5, p. 290–296, 2009.

YANG, S. J. et al. Preventive effects of bitter melon (Momordica charantia) against insulin resistance and diabetes are associated with the inhibition of NF-κB and JNK pathways in high-fat-fed OLETF rats. Journal of Nutritional Biochemistry, v. 26, n. 3, p. 234–240, 2015.

terça-feira, 22 de março de 2016

Agora eu fiquei doce... Para o mosquito??!?



Como parasitos conseguem se perpetuar? Pense na Malária, doença que recebe pouca atenção porque afeta principalmente países tropicais da América do Sul e da África. Essa doença é causada pelo parasito Plasmodium spp, um protozoário. Esse parasito necessita de dois hospedeiros (seres vivos) para completar seu ciclo de vida: um invertebrado (fêmeas do mosquito Anopheles) e um vertebrado mamífero (nós, seres humanos, por exemplo!). A reprodução do Plasmodium, especificamente, ocorre no inseto, e sua maturação no hospedeiro vertebrado. Mas como fazer com que a forma pronta para reproduzir seja captada pelo mosquito durante a picada?

Cientistas suíços e norte-americanos descobriram que um mecanismo é pelo cheiro! Sim, o parasito da malária te deixa mais ‘’cheiroso’’ para o mosquito. Camundongos infectados com Plasmodium chabaudii, que causa malária em roedores (mas não na gente), são mais atrativos para mosquitos do gênero Anopheles após aproximadamente 10 dias depois da infecção quando comparados a camundongos saudáveis. Mais interessante ainda, é que é em aproximadamente 10 dias depois da infecção que se observou maior presença de gametócitos, fase de vida do parasito que está comprometida com a reprodução, e deve ser ingerida pelo mosquito para que o ciclo da doença se complete.

Essa preferência se da principalmente pela emissão de compostos voláteis (ou seja, compostos que evaporam com muita facilidade), seja aumentando substâncias que atraem ou diminuindo as que repelem o mosquito. Eles confirmaram ainda que a aplicação de certos compostos específicos é capaz de ‘’imitar’’ a situação de infecção.

Os autores discutem que essa evidência demonstra um papel do parasito em modular o comportamento alimentar do mosquito, selecionando indivíduos infectados para facilitar a propagação do próprio parasito. Isso tem implicações, principalmente na prevenção das doenças. Uma vez que esses compostos forem identificados, será possível trabalhar na criação de novos repelentes que sejam eficazes em diminuir o apetite do mosquito.

Será que isso poderia estar ocorrendo também no caso de vírus, como Dengue e Zika? Isso, apenas a ciência dirá. E, tomara, quem sabe, bem em breve.

Referência:

De Moraes C.M. et. al., Malaria-induced changes in host odors enhance mosquito attraction, PNAS, 111 (30), 11079-11084, 2014.

terça-feira, 8 de março de 2016

O melhor amigo do homem


Sabe quando você está triste, chega em casa e seu cachorro parece tentar te alegrar, abanando o rabo, latindo para chamar sua atenção, ou quando você está nervoso e seu cão se afasta, parecendo saber que não é um bom momento para brincadeiras. Parece que eles sabem que estamos sentindo, né? Pois é, eles realmente sabem. Os cães são capazes de reconhecer nossas expressões faciais de acordo com nosso estado emocional e reagem de maneira adequada. Mas parece que essa interação cão e homem vai um pouco mais além.

Em um trabalho recente, pesquisadores mostraram que os cães não apenas reconhecem expressões faciais, mas também sons emitidos por humanos. Os cães foram colocados frente a expressões faciais humanas com seu respectivo som e foi analisado a resposta do cão. Foi possível verificar que os cães tiveram mais respostas correspondentes aos estímulos quando a expressão facial era acompanhada com o seu som em comparação com a apenas a expressão facial. Em outra etapa, os pesquisadores realizaram processo semelhante, mas agora com expressões e sons de outros cães e viram que as respostas a esses estímulos eram consideravelmente mais correlatas.

O fato dos cães reconhecerem sons e expressões de seu semelhante é até esperado, mas porque os cães reconhecem também os humanos?

Esse reconhecimento dos cães pode ser explicado pela evolução de cada espécie. O cão é o melhor amigo do homem a muito tempo, de forma que a formação de grupos mistos dos ancestrais do cão e do homem já foram documentadas. Nesses tempos, em que sobreviver era uma tarefa complicada, essa relação cão e homem era benéfica para ambos. A manutenção dessa relação permitia vantagens na busca por alimento e na proteção contra predadores, entre outras. Com isso, os grupos selecionados pela evolução foram aqueles que os ancestrais do cão e do homem eram capazes de reconhecer as emoções uns dos outros pelas expressões faciais e sons e assim adequar as ações com o objetivo de promover a manutenção dessa relação e dos benefícios que ela proporcionava. A capacidade dos cães responderem mais a estímulos de outros cães em comparação com ao homem é explicável por um possível maior refinamento do reconhecimento que evoluiu dentro da espécie.

Além de saber que seu cãozinho te "entende" essa pesquisa tem a importância por mostrar uma possível capacidade de cognição dos cães fora da sua espécie. Isso significa que os cães poderiam ter a capacidade de adquirir informações se utilizando de diversas formas de obtenção, seja por associação, visualização, audição, entre outros, e tudo isso em relação a uma outra espécie, os humanos. Essa observação é importante, pois esse tipo de cognição somente foi vista até hoje em humanos. Dessa forma, esses dados podem ajudar a entender como evoluiu a capacidade de comunicação social.

Estudos como este, que evidenciam a capacidade dos cães reconhecerem emoções humanas, mostram uma estreita relação ao longo da evolução e fazem cada vez mais justiça ao título dos cães como de melhor amigo do homem.

Referência

ALBUQUERQUE, N. et al. Dogs recognize dog and human emotions. Biology Letters v.12, n. 1, p. 20150883 2016.

Não, suco de melão São Caetano não é a cura do câncer


Recebi pelo Facebook um link para uma postagem do blogue Cura pela Natureza. Lá é descrito o poder de uma planta medicinal capaz de curar o câncer, controlar o diabetes e, de quebra, fortalecer a imunidade do corpo. Sinistro, né? A planta em questão é chamada de melão São Caetano ou melão amargo. Conhecida cientificamente como Momordica charantia, essa planta faz parte da família Cucurbitaceae, junto com outras plantas famosas, como a abóbora, o pepino e a melancia. Ela cresce bem nas áreas tropicais e subtropicais da África, Ásia e Austrália, e foi trazida ao Brasil pelos escravos. O texto cita o Dr. Frank Shallenberger, dos Estados Unidos, que seria o descobridor dos efeitos medicinais da planta.

Fui então atrás das pesquisas publicadas pelo Dr. Shallenberger para saber mais sobre os poderes do melão São Caetano. E descobri que ele nunca publicou nenhum trabalho científico sobre a planta (na verdade, ele nunca publicou qualquer coisa!). Como que alguém descobre uma planta maravilhosa e não mostra à comunidade científica? E fica pior: uma rápida busca no Google mostra que Dr. Shallenberger tem o currículo bem manchado. Em 1994, ele teve sua licença médica cassada na Califórnia devido a várias acusações de incompetência, negligência, e desonestidade e corrupção. Dr. Shallenberger então se mudou para o estado vizinho de Nevada. Lá, também tem vários processos nas costas, incluindo um erro médico que custou a vida de um paciente, onde ele diagnosticou um câncer de cólon como hemorroidas. Em resumo: meu alerta de charlatão está em nível crítico!

Então fiz uma extensa revisão do que já foi publicado pela comunidade científica sobre o melão São Caetano e suas propriedades medicinais, e encontrei mais de 200 trabalhos (e nenhum deles do Dr. Shallenberger, obviamente)! Como é muita informações, eu vou abordar os resultados cientificamente comprovados em três diferentes postagens: hoje sobre câncer, e depois sobre diabetes e sistema imune (aquele que nos defende de infecções).

Se você procurar no Google sobre o melão São Caetano, toda a primeira página de resultados diz a mesma coisa: melão São Caetano cura o câncer. Mas eu vou ser do contra e vou dizer, com respaldo científico, que não. O único trabalho científico feito com humanos foi realizado por um grupo da Tailândia (PONGNIKORN et al., 2003). Os pesquisadores analisaram o efeito do melão São Caetano sobre mulheres com câncer de útero que estavam sendo submetidas à radioterapia. Os cientistas não observaram qualquer diferença nos tumores entre quem recebeu ou não a planta. Dessa forma, é leviano e perigoso afirmar que o melão São Caetano é capaz de curar o câncer. Todos os outros testes até hoje foram feitos apenas em células de cultura no laboratório ou em camundongos. O que não quer dizer que eles não são animadores.

Começando do começo, diversos grupos testaram os efeitos de proteínas ou compostos isolados da planta sobre células de tumores mantidas em cultura nos laboratório. Algumas proteínas purificadas do melão São Caetano são capazes de bloquear a capacidade das células de produzir outras proteínas, o que pode ser usado para evitar que o tumor cresça ou pode mata-lo. Diversos grupos de pesquisa mostraram então que essas proteínas podem agir contra vários tipos de câncer em cultura, como rim, pulmão, mama, próstata, pele, fígado, bexiga e útero (CAO et al., 2015; FAN et al., 2015; FANG et al., 2012a, 2012b, 2012c; HAO et al., 2014; LEE-HUANG et al., 2000; LI et al., 2009; LV et al., 2015; MANOHARAN; JAISWAL; SINGH, 2014; RYBAK et al., 1994; SU et al., 2009). Já a semente do melão São Caetano possui uma grande quantidade de uma gordura específica, chamada ácido linoleico conjugado. Algumas pesquisas mostraram que esse composto tem efeito antitumoral contra células de câncer de cólon e mama, e de leucemia (GROSSMANN et al., 2009; KOBORI et al., 2008; YASUI et al., 2005). Porém, essa gordura também pode ser tóxica contra as células saudáveis (KOBORI et al., 2008). Por último, diversos outros compostos foram purificados e testados, mostrando capacidade de matar células de câncer de útero, próstata, pulmão, cérebro, fígado, estômago, mama, e leucemia em cultura (AKIHISA et al., 2007; LI et al., 2012b; PITCHAKARN et al., 2011, 2012a, 2012b; SAENGSAI et al., 2015; TABATA et al., 2012; WANG et al., 2012; WENG et al., 2013; ZHANG et al., 2012; ZHAO et al., 2014). Esses resultados apenas mostram que o melão São Caetano é uma interessante fonte de novos compostos com atividade para combater tumores, e estão muito longe do comprovar que consumir a planta ajuda pessoas doentes. As proteínas provavelmente serão digeridas no estômago do paciente e vão perder seus efeitos. A gordura e os outros compostos podem não ser absorvidos ou estarem presentes em uma quantidade muito pequena, de modo que o consumo da planta mesmo que muito, não seria suficiente para atacar os tumores.

Os cientistas também testaram diferentes extratos da planta sobre as células tumorais em cultura. Ao contrário dos compostos isolados, os extratos podem ser uma aproximação melhor do consumo da planta, mas também não podem ser levados como prova cabal que o melão São Caetano cura o câncer. Isso porque os extratos feitos em laboratório costumam ser muito mais concentrados (“fortes”) do que os sucos ou chás que conseguiríamos fazer em casa. Seria como beber o xarope do guaraná natural puro no lugar de diluir em água! E o que os pesquisadores viram? O extrato da folha do melão São Caetano deixa células tumorais mais sensíveis à quimioterapia (LIMTRAKUL; KHANTAMAT; PINTHA, 2004), além de reduzir a capacidade de migração de células de câncer de próstata e pulmão (HSU et al., 2012; PITCHAKARN et al., 2010). Já as culturas de câncer de mama, faringe, estômago, cólon e reto, fígado, ovário, e adrenocarcinomas se mostram sensíveis à ação dos extratos da planta (BRENNAN; WANG; YANG, 2012; LI et al., 2012a; RAY et al., 2010; WAIYAPUT et al., 2012; YUNG et al., 2015). Porém, na contramão do que foi mostrado acima, um grupo de cientistas alemão não conseguiu ver efeito do extrato do melão São Caetano sobre células de câncer de mama (ERHARUYI et al., 2014). Essa diferença pode ter sido causada pelo uso de um diferente tipo de extrato ou de tumor de mama (esses tipos de inconsistências são comuns na Ciência, talvez até mais do que deveriam, mas isso é assunto para outra postagem).

Passando para testes em animais, os cientistas também obtiveram resultados interessantes. A injeção de proteínas purificadas do melão São Caetano em camundongos foi capaz de combater câncer de mama, próstata e fígado (CAO et al., 2015; FANG et al., 2012b; LEE-HUANG et al., 2000; SU et al., 2009). Nesses experimentos, foram usados modelos de câncer chamados de xenotransplante, onde células tumorais cultivadas em laboratório são injetadas nos animais. Essas células se desenvolvem e formam um tumor. Esse modelo é bom para se testar se compostos que combatem células tumorais nas culturas de laboratório também são capazes de fazer isso em um sistema mais complexo. Ele também ajudar a estimar a toxidade do tratamento. Assim, um grupo de pesquisadores chineses e americanos mostrou que, embora seja eficiente no combate a tumores, a proteína α-MMC é potencialmente tóxica para as células saudáveis, o que deve inviabilizar sua utilização como tratamento para o câncer em humanos (CAO et al., 2015).

O ácido linoleico conjugado presente nas sementes do melão São Caetano também foi testado em animais e foi capaz de combater tumores causados por agentes químicos em camundongos (KOHNO et al., 2002). Outros compostos isolados da planta também foram usados nesses modelos e se mostraram eficientes (AKIHISA et al., 2007; ZHANG et al., 2012). Alguns grupos também testaram o uso do extrato total do melão São Caetano que em camundongos foi capaz de reduzir a migração (PITCHAKARN et al., 2010) e causar a morte de células de câncer de próstata (PITCHAKARN et al., 2012b; RU et al., 2011). O extrato também teve atividade contra o câncer de ovário (YUNG et al., 2015).

O trabalho mais interessante sobre os possíveis efeitos do melão São Caetano sobre o câncer foi publicado há mais de 20 anos por um grupo de cientistas indianos. Os pesquisadores expuseram os camundongos a um agente químico tóxico, conhecido por causar câncer no estômago. E então suplementaram a ração dos animais com 5 % de extrato da planta. Os animais que comeram o extrato apresentaram uma redução de 70 % no aparecimento de tumores (DEEP et al., 2004).

Todos esses resultados indicam que o melão São Caetano tem potencial para fornecer novos compostos para serem trabalhados pela indústria farmacêutica. O extrato da planta apresentou alguns resultados interessantes no tratamento em animais, mas ainda não em pacientes humanos. De qualquer modo, o suco ou chá do melão São Caetano é consumido tradicionalmente na Ásia, o que mostra que ele não deve fazer mal. Se você quiser tomar, fique à vontade. Mas os pacientes com câncer nunca devem substituir o tratamento prescrito por um oncologista por qualquer outra coisa que leu na Internet (principalmente se quem recomenda é um médico não muito confiável).

Referências

AKIHISA, T. et al. Cucurbitane-type triterpenoids from the fruits of Momordica charantia and their cancer chemopreventive effects. Journal of Natural Products, v. 70, n. 8, p. 1233–1239, 2007.

BRENNAN, V. C.; WANG, C.-M.; YANG, W.-H. Bitter melon (Momordica charantia) extract suppresses adrenocortical cancer cell proliferation through modulation of the apoptotic pathway, steroidogenesis, and insulin-like growth factor type 1 receptor/RAC-α serine/threonine-protein kinase signaling. Journal of Medicinal Food, v. 15, n. 4, p. 325–334, 2012.

CAO, D. et al. Alpha-momorcharin (α-MMC) exerts effective anti-human breast tumor activities but has a narrow therapeutic window in vivo. Fitoterapia, v. 100, p. 139–149, 2015.

DEEP, G. et al. Cancer preventive potential of Momordica charantia L. against benzo(a)pyrene induced fore-stomach tumourigenesis in murine model system. Indian Journal of Experimental Biology, v. 42, n. 3, p. 319–322, 2004.

ERHARUYI, O. et al. Anticancer activity of five forest crops used in African folklore: antiproliferative and pro-apoptotic effects. Natural Product Research, p. In press, 2014.

FAN, X. et al. Α-MMC and MAP30, two ribosome-inactivating proteins extracted from Momordica charantia, induce cell cycle arrest and apoptosis in A549 human lung carcinoma cells. Molecular Medicine Reports, v. 11, n. 5, p. 3553–3558, 2015.

FANG, E. F. et al. The MAP30 protein from bitter gourd (Momordica charantia) seeds promotes apoptosis in liver cancer cells in vitro and in vivo. Cancer Letters, v. 324, n. 1, p. 66–74, 2012a.

FANG, E. F. et al. In vitro and in vivo anticarcinogenic effects of RNase MC2, a ribonuclease isolated from dietary bitter gourd, toward human liver cancer cells. International Journal of Biochemistry and Cell Biology, v. 44, n. 8, p. 1351–1360, 2012b.

FANG, E. F. et al. RNase MC2: A new Momordica charantia ribonuclease that induces apoptosis in breast cancer cells associated with activation of MAPKs and induction of caspase pathways. Apoptosis, v. 17, n. 4, p. 377–387, 2012c.

GROSSMANN, M. E. et al. Eleostearic acid inhibits breast cancer proliferation by means of an oxidation-dependent mechanism. Cancer Prevention Research, v. 2, n. 10, p. 879–886, 2009.

HAO, L. et al. Expression of Momordica charantia MAP30 and its anti-tumor effect on bladder cancer cells. Minerva Urologica e Nefrologica, p. In press, 2014.

HSU, H. Y. et al. Antimigratory effects of the methanol extract from Momordica charantia on human lung adenocarcinoma CL1 cells. Evidence-based Complementary and Alternative Medicine, v. 2012, p. 819632, 2012.

KOBORI, M. et al. α-Eleostearic acid and its dihydroxy derivative are major apoptosis-inducing components of bitter gourd. Journal of Agricultural and Food Chemistry, v. 56, n. 22, p. 10515–10520, 2008.

KOHNO, H. et al. Dietary conjugated linolenic acid inhibits azoxymethane-induced colonic aberrant crypt foci in rats. Japanese Journal of Cancer Research: Gann, v. 93, n. 2, p. 133–142, 2002.

LEE-HUANG, S. et al. Inhibition of MDA-MB-231 human breast tumor xenografts and HER2 expression by anti-tumor agents GAP31 and MAP30. Anticancer Research, v. 20, n. 2A, p. 653–659, 2000.

LI, C. et al. Momordica charantia Extract Induces Apoptosis in Human Cancer Cells through Caspase- and Mitochondria-Dependent Pathways. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine, v. 2012, p. 261971, 2012a.

LI, M. et al. Anti-tumor activity and immunological modification of ribosome-inactivating protein (RIP) from Momordica charantia by covalent attachment of polyethylene glycol. Acta Biochimica et Biophysica Sinica, v. 41, n. 9, p. 792–799, 2009.

LI, Y. et al. Application of high-speed counter-current chromatography coupled with a reverse micelle solvent system to separate three proteins from Momordica charantia. Journal of Chromatography B: Analytical Technologies in the Biomedical and Life Sciences, v. 895-896, p. 77–82, 2012b.

LIMTRAKUL, P.; KHANTAMAT, O.; PINTHA, K. Inhibition of P-glycoprotein activity and reversal of cancer multidrug resistance by Momordica charantia extract. Cancer Chemotherapy and Pharmacology, v. 54, n. 6, p. 525–530, 2004.

LV, Q. et al. Recombinant expression and purification of a MAP30-cell penetrating peptide fusion protein with higher anti-tumor bioactivity. Protein Expression and Purification, v. 111, p. 9–17, 2015.

MANOHARAN, G.; JAISWAL, S. R.; SINGH, J. Effect of alpha, beta momorcharin on viability, caspase activity, cytochrome c release and on cytosolic calcium levels in different cancer cell lines. Molecular and Cellular Biochemistry, v. 388, n. 1-2, p. 233–240, 2014.

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TABATA, K. et al. Kuguaglycoside C, a constituent of Momordica charantia, induces caspase-independent cell death of neuroblastoma cells. Cancer Science, v. 103, n. 12, p. 2153–2158, 2012.

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terça-feira, 1 de março de 2016

A bactéria da vida eterna e um senhor querendo atenção


Me marcaram no Facebook em um vídeo do canal AssombradO.com.br. O vídeo reproduz notícias de que um pesquisador russo, chamado Anatoli Brouchkov, teria descoberto uma bactéria capaz de aumentar a longevidade e melhorar a saúde de ratos idosos. A bactéria em questão seria uma tal Bacillus F. Legal, né? Fui então atrás dos trabalhos do Dr. Brouchkov para ver os resultados. Mas só achei um cientista carente.

Buscas no site do Pubmed (que é um banco de dados de revistas científicas das áreas biológicas e médicas) mostram que o Dr. Brouchkov tem 13 artigos publicados. Já no site Scopus, que tem uma base de dados mais ampla, aparecem 15 resultados. Essa produção pode ser considerada baixa para um pesquisador da idade de Brouchkov, mas isso não é nada grave. Porém, se cruzarmos nas buscas Brouchkov e Bacillus, temos apenas dois artigos. E pior: Brouchkov não é o pesquisador responsável em nenhum dos trabalhos. Fica a pergunta: se ele não é o responsável, por que fica em foco na mídia? Fazendo uma comparação rápida, é um problema parecido com o caso da fosfoetanolamina, onde o Dr. Chierice colocou a boca no trombone sem ser o cientista líder do estudo (e a treta foi formada). Assim, acho que o Dr. Brouchkov quer apenas atenção.

Então, o que das notícias foi cientificamente publicado? Primeiro, o vídeo diz que uma das bactérias é capaz de quebrar petróleo em água. Hum, vamos por partes. É quimicamente impossível simplesmente quebrar petróleo em água, porque o petróleo tem átomos de carbono, que não estão presentes na água. Teríamos que descobrir uma bactéria alquimista. O que as bactérias podem sim fazer é usar o petróleo como fonte de energia e de moléculas para o crescimento, transformando o petróleo em gorduras e açúcares. Essas bactérias poderiam ser usadas para conter e ajudar em casos de acidentes com derramamento de óleo no mar e em praias. Esse processo é chamado de biorremediação e diversos grupos de pesquisas brasileiros trabalham nessa área, já que a exploração de petróleo é parte importante da economia do país. Mas uma bactéria capaz de “comer” petróleo não seria nenhuma novidade: diversos micróbios fazem isso e já são conhecidos há mais de uma década (HEAD; JONES; RÖLING, 2006). Para piorar, nenhuma das bactérias encontradas no gelo da Sibéria é capaz de fazer isso (ZHANG et al., 2013). Então, não sei de onde saiu essa informação.

Outra bactéria descoberta lá seria capaz de degradar celulose; efetivamente uma bactéria identificada como Arthrobacter phenanthrenivorans se mostrou capaz de quebrar esse açúcar presente em plantas (ZHANG et al., 2013). Mas isso está longe de ser um milagre: muitas outras bactérias também são conhecidas por essa capacidade (RANSOM-JONES et al., 2012). Aliás, várias delas são estudas visando seu uso na produção de etanol combustível a partir de bagaço de cana, o que é chamado de etanol de segunda geração.

E quais informações estão disponíveis sobre a tal da Bacillus F? Dois trabalhos apenas. O primeiro mostra que a bactéria não causa doença em camundongos e protege esses animais de infecção por Salmonella, bactéria conhecida por causar graves intoxicações alimentares (FURSOVA et al., 2012). Os autores especulam que a Bacillus F estimularia o sistema imune dos camundongos, deixando os bichos mais resistentes a doenças, mas isso não é mostrado claramente. O outro trabalho é a publicação da sequência completa do genoma da bactéria, o que por si só não traz grandes informações sobre a biologia da Bacillus F (BRENNER et al., 2013).

Mas e a história da vida eterna? Não tem nada publicado. Só achei um trabalho do Dr. Brouchkov com outra bactéria, chamada Bacillus sp. linhagem 3M (BROUCHKOV et al., 2011). Nesse artigo, a bactéria aumenta o tempo de vida de moscas-da-fruta e de camundongos. E as moscas sofrem com uma redução na sua fertilidade, ou seja, colocam menos ovos. Essa relação entre longevidade e fertilidade já é bem conhecida e estudada pela Ciência (EHRLICH, 2015). Desse modo, os efeitos vistos podem simplesmente não ter relação com a bactéria em questão; qualquer estresse que cause uma redução na fertilidade (uma infecção, redução da quantidade de comida disponível, etc.) pode levar a um aumento na longevidade. Os resultados mostrados pelo Dr. Brouchkov são muito frágeis para justificar o alarde feito pela mídia russa.

E então, provavelmente querendo receber atenção, Dr. Brouchkov disse que se infectou de propósito com a Bacillus F, se usando de cobaia para testar os supostos efeitos da bactéria sobre a saúde. Assombroso, não é? Na verdade, não. Se injetar uma bactéria que sabemos que não causa doença é fácil. Eu vou contar uma história bem mais assombrosa!

Era uma vez, um cientista australiano chamado Barry Marshall, médico gastroenterologista (especialista do sistema digestivo) e professor de microbiologia da Universidade da Austrália Ocidental. Na década de 1980, Dr. Marshall, junto com seu colega Dr. Robin Warren, estudava uma bactéria encontrada em estômagos de pacientes com gastrite. Os dois cultivaram a bactéria, chamada de Helicobacter pylori, em laboratório e construíram a hipótese de que essa bactéria causava a doença. Foram ridicularizados pela comunidade médica, que dizia que isso era impossível, pois as bactérias não sobreviveriam no ambiente ácido do estômago; para ela a gastrite era causa pelo estresse e consumo de comida picante. Para dar força a sua teoria, Dr. Marshall precisava cumprir os postulados de Koch, quatro critérios definidos pelo médico alemão Robert Koch em 1890 para mostrar a relação de causa entre um micróbio e uma doença. Os postulados de Koch são: 1) O micróbio deve ser encontrado em todos os organismos que sofrem da doença (Dr. Marshall já tinha encontrado a H. pylori em pacientes com gastrite); 2) O micróbio deve ser isolado de um doente e cultivado em laboratório (Dr. Marshall já tinha uma cultura de H. pylori no laboratório); 3) O micróbio cultivado em laboratório deve causar a mesma doença quando colocado em um organismo sadio e; 4) O micróbio deve ser novamente isolado desse novo organismo infectado (faltavam esses dois últimos). Dr. Marshall tentou infectar leitões com H. pylori diversas vezes sem sucesso e, então, radicalizou! Através de uma endoscopia, ele “bebeu” uma cultura de H. pylori. Em três dias, ele já estava sentindo enjoo; em cinco, apresentou vômito. Em oito dias, ele já estava com gastrite e conseguiu isolar e cultivar a H. pylori do seu próprio estômago (cumprindo o terceiro e quarto postulados de Koch, dando força a sua teoria). Depois de 14 dias, ele começou um tratamento com antibióticos e se curou da gastrite, o que a partir de então teve grande implicação no tratamento da doença (MARSHALL et al., 1985).

E aí, Dr. Brouchkov? Topa essa? Isso sim é assombroso! A pesquisa do Dr. Marshall foi publicada em 1985 e, 20 anos depois, ele e o Dr. Warren ganharam o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia. Parece que valeu a pena!

Referência

BRENNER, E. V. et al. Draft Genome Sequence of Bacillus cereus Strain F, Isolated from Ancient Permafrost. Genome Announcements, v. 1, n. 4, p. e00561–13, 2013.

BROUCHKOV, A. V et al. Relict microorganisms of cryolithozone as possible objects of gerontology. Advances in Gerontology, v. 1, n. 1, p. 39–44, 2011.

EHRLICH, S. Effect of fertility and infertility on longevity. Fertility and Sterility, v. 103, n. 5, p. 1129–1135, 2015.

FURSOVA, O. et al. Probiotic Activity of a Bacterial Strain Isolated from Ancient Permafrost Against Salmonella Infection in Mice. Probiotics and Antimicrobial Proteins, v. 4, n. 3, p. 145–153, 2012.

HEAD, I. M.; JONES, D. M.; RÖLING, W. F. M. Marine microorganisms make a meal of oil. Nature reviews. Microbiology, v. 4, n. 3, p. 173–182, 2006.

MARSHALL, B. J. et al. Attempt to fulfil Koch’s postulates for pyloric Campylobacter. Medical Journal of Australia, v. 142, n. 8, p. 436–439, 1985.

RANSOM-JONES, E. et al. The Fibrobacteres: An Important Phylum of Cellulose-Degrading Bacteria. Microbial Ecology, v. 63, n. 2, p. 267–281, 2012.

ZHANG, D.-C. et al. Isolation and characterization of bacteria from ancient siberian permafrost sediment. Biology, v. 2, n. 1, p. 85–106, 2013.