quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Suco de graviola: nova fosfoetanolamina?


Recebi pelo Whatsapp uma mensagem sobre a mais nova cura do câncer: graviola. Um produto milagroso, 10 mil vezes mais potente que a quimioterapia tradicional. Recheada da já típica teoria da conspiração, a mensagem diz que a graviola é antimicrobiana, cura verminose, combate a pressão arterial, reduz o estresse, melhora a depressão e age no sistema nervoso, mas a indústria farmacêutica esconde esses benefícios para continuar vendendo seus remédios.

A graviola, que atende pelo nome científico de Annona muricata, é originária das Antilhas e usada como planta medicinal em diferentes partes da América Latina. Mas a graviola tem algum efeito comprovado sobre o câncer?

Procurei pela literatura e descobri que a graviola realmente está sendo estudada como uma possível fonte de novos compostos para o combate ao câncer. A planta já é estudada há pelo menos 20 anos, mas não existe estudo clínico que mostre sua eficiência em pacientes com tumores. Porém, várias pesquisas mostram que extratos de diferentes partes da graviola agem matando células tumorais em cultura e em animais de laboratório.

Em 1996, pesquisadores americanos purificaram diversos compostos (chamados acetogeninas) da semente da graviola e um desses compostos foi capaz de matar células de câncer de intestino em cultura (RIESER et al., 1996). Ele realmente foi 10 mil vezes mais potente que a adriamicina, uma quimioterapia usada até hoje (e daí deve vir a história que o suco de graviola é melhor que a quimioterapia). Nos anos seguintes, outros grupos isolaram novas e diferentes acetogeninas da semente e folha da planta e mostraram a capacidade delas em matar células de câncer de próstata, pâncreas e fígado em cultura (CHANG; WU, 2001; CHANG et al., 2003; KIM et al., 1998; LIAW et al., 2002). Isso quer dizer que a graviola cura o câncer? Não. Embora esses compostos estejam presentes na planta, eles estão em quantidade baixa e não necessariamente são absorvidos pelo corpo. Mas poderão ser usados para o desenvolvimento de novos quimioterápicos.

Depois, pesquisadores pelo mundo investigaram o efeito de extratos de diferentes partes da planta sobre células tumorais. Os grupos mostraram que esses extratos são tóxicos para células de tumores de laringe, pulmão e próstata (DE MELO et al., 2010; PIEME et al., 2014; SUN et al., 2014; ZOROFCHIAN MOGHADAMTOUSI et al., 2014a, 2014b). Porém, um trabalho mostrou que o extrato de folha de graviola é um pouco tóxico também para as células saudáveis (CIJO GEORGE et al., 2012). Isso quer dizer que a graviola cura o câncer? Não. Esses extratos normalmente são feitos misturando as partes da planta com solventes orgânicos, para permitir retirar os compostos que não se misturam com a água. É como um chá feito com metanol, por exemplo. E, como eu espero que vocês imaginem, um chá com metanol não deve ser bebido.

E um chá com água? Dois grupos de pesquisadores recentemente avaliaram o efeito de um extrato aquoso de folha de graviola (o que poderia ser semelhante a um chá muito, muito, muito concentrado). Esse extrato foi capaz de agir contra células de câncer de pele em cultura (MAGADI et al., 2015). Em outro estudo, o extrato reduziu o aparecimento de câncer de próstata em camundongos usados como modelo para essa doença (ASARE et al., 2015). Isso quer dizer que a graviola cura o câncer? Não. Embora, em teoria, os mesmo compostos presentes no extrato aquoso de folha de graviola irão estar em um chá da mesma folha, no chá eles estarão em uma quantidade muito menor. Seria necessário beber centenas ou milhares de litros de chá por dia para ter um efeito similar.

Outros grupos de pesquisadores passaram dos testes em cultura de célula e testaram os extratos de graviola em animais. Os extratos se mostram eficientes em animais com câncer de pâncreas, pele e próstata, reduzindo a quantidade e tamanho dos tumores, e o espalhamento do câncer para outros órgãos (HAMIZAH et al., 2012; TORRES et al., 2012; YANG et al., 2015). Em um trabalho recente, pesquisadores da Malásia testaram um composto purificado da graviola (chamado anomuricina E) em camundongos usados como modelos para câncer de intestino e observaram uma redução no aparecimento de tumores (ZOROFCHIAN MOGHADAMTOUSI et al., 2015). Isso quer dizer que a graviola cura o câncer? Não. Os extratos utilizados apresentam uma quantidade de compostos muito mais alta que conseguimos bebendo um suco de graviola. Além disso, a anomuricina E acabou de ser testada em camundongos e vários testes em animais ainda serão necessários para chegarmos a possíveis testes clínicos.

Olhando esses resultados, posso dizer que o extrato de graviola e as acetogeninas estão na mesma situação da fosfoetanolamina: os experimentos com células em cultura e animais de laboratório são promissores, mas não existe ainda nenhuma evidência que funcione em pacientes humanos. Pelo menos, suco de graviola é gostoso e você pode tomar sem medo (mas nunca parar com o tratamento).

Referências

ASARE, G. A. et al. Antiproliferative activity of aqueous leaf extract of Annona muricata L. on the prostate, BPH-1 cells, and some target genes. Integrative Cancer Therapies, v. 14, n. 1, p. 65–74, 2015.

CHANG, F. R. et al. New adjacent Bis-tetrahydrofuran Annonaceous acetogenins from Annona muricata. Planta Medica, v. 69, n. 3, p. 241–246, 2003.

CHANG, F. R.; WU, Y. C. Novel cytotoxic annonaceous acetogenins from Annona muricata. Journal of Natural Products, v. 64, n. 7, p. 925–931, 2001.

CIJO GEORGE, V. et al. Quantitative assessment of the relative antineoplastic potential of the n-butanolic leaf extract of Annona Muricata Linn. in normal and immortalized human cell lines. Asian Pacific Journal of Cancer Prevention, v. 13, n. 2, p. 699–704, 2012.

DE MELO, J. G. et al. Antiproliferative activity, antioxidant capacity and tannin content in plants of semi-arid northeastern Brazil. Molecules, v. 15, n. 12, p. 8534–8542, 2010.

HAMIZAH, S. et al. Chemopreventive potential of Annona muricata L leaves on chemically-induced skin papillomagenesis in mice. Asian Pacific Journal of Cancer Prevention, v. 13, n. 6, p. 2533–2539, 2012.

KIM, G. S. et al. Muricoreacin and murihexocin C, mono tetrahydrofuran acetogenins, from the leaves of Annona muricata. Phytochemistry, v. 49, n. 2, p. 565–571, 1998.

LIAW, C. C. et al. New cytotoxic monotetrahydrofuran annonaceous acetogenins from Annona muricata. Journal of Natural Products, v. 65, n. 4, p. 470–475, 2002.

MAGADI, V. P. et al. Evaluation of cytotoxicity of aqueous extract of Graviola leaves on squamous cell carcinoma cell-25 cell lines by 3-(4,5-dimethylthiazol-2-Yl) -2,5-diphenyltetrazolium bromide assay and determination of percentage of cell inhibition at G2M phase of cell c. Contemporary Clinical Dentistry, v. 6, n. 4, p. 529–533, 2015.

PIEME, C. A. et al. Antiproliferative activity and induction of apoptosis by Annona muricata (Annonaceae) extract on human cancer cells. BMC Complementary and Alternative Medicine, v. 14, p. 516, 2014.

RIESER, M. J. et al. Five Novel Mono-tetrahydrofuran Ring Acetogenins from the Seeds of Annona muricata. Journal of Natural Products, v. 59, n. 2, p. 100–108, 1996.

SUN, S. et al. Three new anti-proliferative Annonaceous acetogenins with mono-tetrahydrofuran ring from graviola fruit (Annona muricata). Bioorganic and Medicinal Chemistry Letters, v. 24, n. 12, p. 2773–2776, 2014.

TORRES, M. P. et al. Graviola: A novel promising natural-derived drug that inhibits tumorigenicity and metastasis of pancreatic cancer cells in vitro and in vivo through altering cell metabolism. Cancer Letters, v. 323, n. 1, p. 29–40, 2012.

YANG, C. et al. Synergistic interactions among flavonoids and acetogenins in Graviola (Annona muricata) leaves confer protection against prostate cancer. Carcinogenesis, v. 36, n. 6, p. 656–665, 2015.

ZOROFCHIAN MOGHADAMTOUSI, S. et al. Annona muricata leaves induce G1 cell cycle arrest and apoptosis through mitochondria-mediated pathway in human HCT-116 and HT-29 colon cancer cells. Journal of Ethnopharmacology, v. 156, p. 277–289, 2014a.

ZOROFCHIAN MOGHADAMTOUSI, S. et al. Annona muricata leaves induced apoptosis in A549 cells through mitochondrial-mediated pathway and involvement of NF-kappaB. BMC Complementary and Alternative Medicine, v. 14, n. 1, p. 299, 2014b.

ZOROFCHIAN MOGHADAMTOUSI, S. et al. The Chemopotential Effect of Annona muricata Leaves against Azoxymethane-Induced Colonic Aberrant Crypt Foci in Rats and the Apoptotic Effect of Acetogenin Annomuricin E in HT-29 Cells: A Bioassay-Guided Approach. PloS one, v. 10, n. 4, p. e0122288, 2015.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Se sujar faz bem?


Outro dia navegando na internet me deparei com uma reportagem que me chamou a atenção, “Exposição à sujeira, germes e pelos pode proteger bebês contra alergia e asma”. O texto dizia que manter crianças nos seus primeiros anos de vida em ambientes não muito limpos diminui o risco de desenvolvimento de asma. Será mesmo que a marca de sabão em pó estava certa todo esse tempo, se sujar realmente faz bem?

Bom, a asma é uma doença relacionada ao sistema de defesa do corpo (que chamamos de sistema imune) e como ele interage com o ambiente. Um sistema imune bem regulado tem capacidade de reconhecer o que causa mal ao corpo e o que pode ser ignorado. Assim, em pessoas com a imunidade competente o contato com pólen, pelo de gato, entre outras coisas comuns ao ambiente não levam a ativação do sistema imune. No entanto, em pessoas alérgicas esse contato leva a uma ativação seletiva de uma parte da imunidade, com grande produção de substâncias que acabam sendo tóxicas para o corpo.

Mas o que isso tem a ver com sujeira?

Na verdade, não é exatamente a sujeira, mas os pesquisadores acreditam que o contato com uma maior diversidade de microrganismos e moléculas do ambiente, nos três primeiros anos de vida, pode moldar melhor a imunidade. Assim o corpo teria capacidade de tolerar substâncias do ambiente (RIISER, 2015). Esse processo ocorreria semelhante a tolerância do sistema imune para as diversas substância do nosso corpo. As células da imunidade não geram resposta contra as demais células do corpo, porque elas são “educadas” durante seu processo de maturação Elas são apresentadas a moléculas próprias e as que as toleram se mantem, as que se ativam são eliminadas e assim ocorre a seleção, impedindo auto reatividade.

Para testar essa hipótese, os pesquisadores realizaram estudos populacionais onde se comparou a incidência de asma entre pessoas que vivem em ambientes urbanos com as que vivem em fazenda. Eles acreditam que viver em uma fazenda permite a pessoa ter contato com maior diversidade de substância que na cidade. E realmente pessoas que vivem em fazendas tiveram menor prevalência de asma que as que vivems na cidades (VON MUTIUNS, 2005). E essa tendência vem sendo confirmada em diversos países e regiões (TIMM, 2015; WELLS, 2014).

Mesmo com o fato dessa correlação ser realmente interessante, uma questão ainda permanece sem resposta. É realmente o contato com maior diversidade da fazenda que impede o desenvolvimento de asma? Ou não viver em contato com fumaça e poluição da cidade que faz esse efeito? Alguns trabalhos já mostraram correlação entre poluição e aumento da prevalência de asma (D’AMATO, 2005). Além disso, um outro fator também vai contra os primeiros trabalhos, e tem a ver com o sistema de saúde local. Uma pessoa com asma necessita de cuidados médicos que muitas vezes não encontra em ambientes rurais das fazendas e, por esse motivo, as pessoas com asma precisam se mudar para regiões mais próximas das cidades com melhor acesso a serviços médicos. Com isso, talvez as fazendas tenham menos pessoas com asma simplesmente porque as com asma se mudam a procura de melhor serviço médico.

Apesar da questão sem resposta, um último estudo traz novamente a brasa para a sardinha de que se sujar faz bem. Os pesquisadores conseguiram mostrar que as fazendas possuem mais microrganismos que nos demais lugares (EGE, 2011). Eles analisaram a composição dos microrganismos contida no ambiente das casas em fazendas e comparam com casas nos demais lugares na mesma região e viram que a quantidade de microrganismos na fazenda era maior. Depois disso, eles foram além, correlacionaram esses resultados com a incidência de asma e bingo! Quanto maior a quantidade de microrganismos menor a quantidade de pessoas com asma.

Depois de muitas evidências e uma questão ainda sem resposta, não é possível dizer com certeza se a “sujeira” é aliada ou inimiga. Só sei que ficar na cidade com a fumaça e a poluição não é uma boa escolha (mas às vezes não é uma opção).

Referências

D’AMATO, G. at al. Environmental risk factors and allergic bronchial asthma. Clinical e Experimental Allergy, v.35 n.9, p. 1113-1124, 2005.

EGE, M. J. at al. Exposure to environmental microorganisms and childhood asthma. The New England Journal of Medicine, v. 364, n. 8, p. 701-709, 2011.

VON MULTIUS, E; VERCILLY, D. Farm living: effects on childhood asthma and allergy. Nature Reviews Imnunology, v. 10, p. 861-868, 2010.

RIISER, A. The human microbiome, asthma, and allergy. Allergy Asthma Clinical Immunology, v. 11, 2005

TIMM, S. et al. The Urban-Rural Gradient In Asthma: A Population-Based Study in Northern Europe. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 13, n. 93, 2015.
 
WELLS, A. D.; POOLE, J. A.; ROMBERGER, D. J.; Influence of farming exposure on the development of asthma and asthma-like symptoms. International Immunopharmacology, v. 23, p. 356-363, 2014.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

A fonte da juventude pode estar no prato... vazio?


A cada verão surgem novas dietas que prometem emagrecer, chapar barriga, crescer músculo, trazer a pessoa amada em três dias, etc... Já teve dieta da sopa, da USP, do tipo sanguíneo, dieta dos sucos, da lua, do Dr. Atkins, de South Beach, e por aí vai. Nos últimos anos, duas dietas (ou, melhor dizendo, padrões alimentares) ganharam atenção na Internet e na mídia: o jejum intermitente e a dieta 5:2. O jejum intermitente basicamente não restringe o que você pode comer; ele restringe as horas em que você pode comer. Sabe aquela história de que o café-da-manha é a refeição mais importante do dia e que devemos comer de três em três horas? Esquece! Nesse padrão alimentar, você deve pular o café-da-manha (sua primeira refeição será o almoço) e você deve parar de comer pelo menos três horas antes de ir dormir. Ou seja, você fica em jejum por mais ou menos 17 horas todo dia, e come nas outras 7 horas. Já a dieta 5:2 recomenda que em dois dias da semana você coma apenas 20 % (ou seja, cinco vezes menos) das calorias consumidas normalmente. Em teoria, isso causaria um efeito chamado restrição calórica.

Mas existe alguma evidência de que jejum intermitente ou restrição calórica realmente tragam benefícios para a saúde? Na verdade, sim!

O jejum intermitente já foi testado com sucesso em alguns modelos animais. Pesquisadores americanos alimentaram camundongos com uma ração rica em gordura sob o regime normal (com comida a vontade a qualquer momento) ou sob jejum intermitente (com comida a vontade por apenas 8 horas por dia). Embora os dois grupos comessem a mesma quantidade de ração, os animais sob jejum intermitente simplesmente tinham maior dificuldade em engordar. Assim, enquanto os animais controles ficaram obesos, diabéticos, com problemas no fígado (acúmulo de gordura) e com níveis altos de colesterol no sangue, os animais sob jejum intermitente eram totalmente saudáveis. A explicação para isso é que o jejum intermitente muda o metabolismo do camundongo, diminuindo o acúmulo de gordura e aumentando a queima delas, num processo chamado termogênese (que é a geração de calor nas células através da liberação de energia na quebra de moléculas como gorduras e açúcares) (HATORI et al., 2012). Porque isso acontece ainda é um mistério. Resultados semelhantes foram obtidos com mosca-da-fruta, onde o jejum intermitente melhorou o sono, e preveniu a obesidade e problemas cardíacos associados com o envelhecimento nos insetos (GILL et al., 2015). E diversas outras pesquisas mostram que o jejum intermitente leva a uma redução do peso e da gordura acumulada na barriga, e dos níveis de colesterol, triglicerídeos, glicose e insulina em ratos e camundongos (AZEVEDO; IKEOKA; CARAMELLI, 2013; ROTHSCHILD et al., 2014). Isso reduz os riscos de doenças do coração, derrames e diabetes (MATTSON; WAN, 2005).

Já a restrição calórica é um padrão alimentar que consiste na redução das calorias em torno de 30 %, mas mantendo uma alimentação balanceada. Estudos com vários modelos, incluindo leveduras, vermes, insetos, camundongos e macacos, mostraram que a restrição calórica melhora a saúde do organismo, além de aumentar o tempo de vida dos animais. Isso mesmo; os animais vivem por mais tempo e são mais saudáveis. De alguma forma, a restrição calórica atrasa o envelhecimento (TAORMINA; MIRISOLA, 2014). A hipótese atual indica que a redução do consumo de calorias causa uma mudança do metabolismo, aumentando a quebra de gorduras e a proteção das células contra danos, o que frearia o envelhecimento.

Mas isso funciona na gente? Ainda existem poucos estudos controlados sobre jejum intermitente e restrição calórica em humanos. Porém eles indicam que essas intervenções alimentares podem reduz o peso, o risco de doenças do coração e diabetes, e os níveis de triglicerídeos, glicose e colesterol no sangue, além de proteger o cérebro contra doenças senis associadas ao envelhecimento, como Alzheimer e Parkinson (BARNOSKY et al., 2014; DOLINSKY; DYCK, 2011; HORNE; MUHLESTEIN; ANDERSON, 2015; MARTIN; MATTSON; MAUDSLEY, 2006; ROTHSCHILD et al., 2014). Medir longevidade em humanos é difícil porque o experimento é longo, mas existem indícios de que as pessoas possam viver mais devido a sua melhor saúde. Porém, todos os grupos de pesquisa reconhecem que os resultados ainda são esparsos e que mais estudos são necessários para a obtenção de conclusões sólidas e para o início da recomendação clínica.

Algumas pessoas (e pesquisadores) adeptas de teorias de conspiração clamam que esses resultados são ignorados e escondidos pela indústria farmacêutica, que acabaria por perder muitos pacientes, já que eles se curariam sem os remédios vendidos. Eu discordo. A indústria farmacêutica tem diversos grupos trabalhando nesses assuntos, mas não para estudar qual é a melhor forma de fazer essas dietas, e sim entender como elas modificam o metabolismo do organismo. Sabendo como isso funciona, ela vai poder desenvolver novos compostos que “enganem” o organismo, o fazendo pensar que está sobre restrição calórica ou jejum intermitente. E as farmácias vão vender, e muito, esse novo remédio. O que vocês acham que as pessoas preferem? Pular o café-da-manha, ficar dois dias da semana comendo cinco vezes menos, ou continuar comendo qualquer coisa e tomar um comprimido antes de dormir?

Referências

AZEVEDO, F. R. DE; IKEOKA, D.; CARAMELLI, B. Effects of intermittent fasting on metabolism in men. Revista da Associação Médica Brasileira (1992), v. 59, n. 2, p. 167–173, 2013.

BARNOSKY, A. R. et al. Intermittent fasting vs daily calorie restriction for type 2 diabetes prevention: a review of human findings. Translational Research : The Journal of Laboratory and Clinical Medicine, v. 164, n. 4, p. 302–311, 2014.

DOLINSKY, V. W.; DYCK, J. R. B. Calorie restriction and resveratrol in cardiovascular health and disease. Biochimica et Biophysica Acta (BBA) - Molecular Basis of Disease, v. 1812, n. 11, p. 1477–1489, 2011.

GILL, S. et al. Time-restricted feeding attenuates age-related cardiac decline in Drosophila. Science, v. 347, n. 6227, p. 1265–1269, 2015.

HATORI, M. et al. Time-restricted feeding without reducing caloric intake prevents metabolic diseases in mice fed a high-fat diet. Cell metabolism, v. 15, n. 6, p. 848–860, 2012.

HORNE, B. D.; MUHLESTEIN, J. B.; ANDERSON, J. L. Health effects of intermittent fasting: hormesis or harm? A systematic review. The American Journal of Clinical Nutrition, v. 102, n. 2, p. 464–470, 2015.

MARTIN, B.; MATTSON, M. P.; MAUDSLEY, S. Caloric restriction and intermittent fasting: Two potential diets for successful brain aging. Ageing Research Reviews, v. 5, n. 3, p. 332–353, 2006.

MATTSON, M. P.; WAN, R. Beneficial effects of intermittent fasting and caloric restriction on the cardiovascular and cerebrovascular systems. Journal of Nutritional Biochemistry, v. 16, n. 3, p. 129–137, 2005.

ROTHSCHILD, J. et al. Time-restricted feeding and risk of metabolic disease: A review of human and animal studies. Nutrition Reviews, v. 72, n. 5, p. 308–318, 2014.

TAORMINA, G.; MIRISOLA, M. G. Calorie restriction in mammals and simple model organisms. BioMed Research International, v. 2014, p. 308690, 2014.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Por isso os vampiros são imortais?


O envelhecimento da população mundial vem crescendo atualmente, devido a melhorias na qualidade de vida, nas tecnologias empregadas para a saúde e devido ao grande número de tratamentos para as mais diversas enfermidades. Apesar destes avanços, diversas disfunções associadas ao envelhecimento ainda são muito frequentes, como por exemplo, a perda de função cognitiva (habilidades mentais como aprendizado, memória, tomada de decisões, linguagem, julgamento, entre diversas outras). Desta forma, vive-se mais, mas não tão bem assim.

O hipocampo é a região do cérebro responsável por controlar a memória espacial (aquela que usamos para nos orientar) e de curta duração. Doenças típicas do envelhecimento, como o Alzheimer, são conhecidas por afetarem o hipocampo, diminuindo o número de neurônios nesta região e também a plasticidade neuronal (capacidade dos neurônios modificarem sua estrutura de acordo com estímulos). Com isso, os sintomas clássicos de Alzheimer aparecem, principalmente a perda de memória recente.

Estudos anteriores demonstraram que a transfusão de sangue de animais novos para animais velhos tem a capacidade de regenerar tecidos e órgãos, como músculo, fígado e cérebro (a gente já escreveu sobre isso aqui). Se essa melhora estrutural representa uma melhora funcional, não se sabe. Cientistas norte-americanos demonstraram que de fato, sangue ‘’novo’’ melhora a função cognitiva, como o aprendizado e a memória, funções estas perdidas com o envelhecimento.

Utilizando ratos como modelo experimental, eles demonstraram que o tratamento de ratos velhos com sangue de um animal jovem, mas não o de um animal de idade semelhante, é capaz de estimular uma proteína importante para a função do hipocampo, chamada de CREB pelos cientistas. O aumento de CREB no hipocampo de ratos que receberam sangue jovem foi capaz de aumentar o número de neurônios, a plasticidade dos neurônios, o aprendizado e a memória, melhorando, portanto, a capacidade cognitiva de ratos ‘’idosos’’!

As moléculas presentes no sangue dos animais jovens que são de fato responsáveis pelo efeito rejuvenescedor na função cognitiva (seria o sangue jovem o elixir da juventude?) ainda não foram identificadas. Os autores discutem que descobrindo quais moléculas são responsáveis por esse efeito, seríamos capazes de utilizá-las para o tratamento de distúrbios neurológicos associados com o envelhecimento, como por exemplo, o Alzheimer. Estaríamos caminhando para um ‘’vampirismo’’ da atualidade, onde o sangue jovem poderia ser a fórmula para a juventude, e possivelmente uma maior longevidade? Fato é que o sangue ainda pode ter muito a nos surpreender.

Referência
Villeda S.A. et al. Young blood reverses age-related impairments in cognitive function and synaptic plasticity in mice. Nature Medicine, 20, 659-663, 2014.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Se preparando para a próxima pandemia de gripe: novo alvo para tratamento


Hoje a zika ocupa todos os noticiários da mídia na parte de ciência e tecnologia, mas há alguns anos atrás o mundo todo estava preocupado com uma possível nova epidemia mundial causada por um vírus causador da gripe. Surtos de gripe suína e gripe aviária na Ásia deixaram os serviços de saúde preparados para o pior, e aumentou o medo de que uma tragédia como a da gripe espanhola de 1918 se repetisse. Essa pandemia infectou metade da população mundial e matou cerca de 40 milhões de pessoas em dois anos. E como os vírus da gripe apresentam uma alta taxa de mutação, mudando constantemente sua letalidade e capacidade de contaminação, não se pode excluir a possibilidade de uma nova pandemia ocorrer.

Assim, diversos grupos de cientistas pelo mundo estudam com afinco diferentes vírus da gripe, de forma a buscar entender como a doença pode ser fatal e como podemos melhorar o tratamento. No ano passado, pesquisadores de Singapura publicaram a sua pesquisa desvendando parte do processo de como a gripe causa dados graves nos pulmões e pode levar a morte. Nesse trabalho, os cientistas infectaram camundongos com um vírus do grupo H1N1 (relacionado com o que causou a epidemia de 1918) e analisaram a atividade de diversos genes nos pulmões dos animais. Eles observaram um gene específico (chamado ANGPTL4) estava muito mais ativo do que os animais saudáveis. A função desse gene ainda não é bem conhecida, mas ele parece participar de diversos processos, como o de cicatrização.

Os pesquisadores então trataram os camundongos com gripe com um anticorpo contra a ANGPTL4. Um anticorpo se liga fortemente ao seu alvo e pode impedir a função dele. Assim, a ideia era bloquear a ação da proteína ANGPTL4 e avaliar o seu papel durante a doença. Os cientistas observaram que o bloqueio da proteína reduziu os danos nos pulmões causados pela gripe e acelerou o processo de recuperação do órgão. Camundongos modificados geneticamente de modo a não ter o gene ANGPTL4 eram mais resistentes à gripe e seus pulmões se recuperavam mais rápido, reforçando a hipótese de que a atividade desse gene, aumentada durante a doença, é um fator importante no agravamento da gripe.

Os cientistas também analisaram amostra de pulmão de pessoas gripadas e observaram que o mesmo gene estava mais ativo, mostrando que os resultados obtidos em camundongos podem ser extrapolados para ser humanos.

Os pesquisadores ainda não sabem ao certo porque o gene é importante para o desenvolvimento da doença, mas ele vai poder ser usado para diagnosticar pessoas com potencial para ter uma gripe mais grave. Além disso, será possível buscar tratamentos que impeçam a atividade desse gene, de forma a ajudar na recuperação de doentes graves.

Referência
 
LI, L. et al. Angiopoietin-like 4 Increases Pulmonary Tissue Leakiness and Damage during Influenza Pneumonia. Cell reports, v. 10, n. 5, p. 654–663, 2015.