quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Poderemos testar remédios em um novo monstro do Dr. Frankenstein?


“Frankenstein ou o Moderno Prometeu” é um romance de terror gótico escrito por Mary Shelley e lançado em 1818. O livro conta a história do estudante de história natural Victor Frankenstein, que dá vida a uma criatura “humana” feita com partes de diversos cadáveres. Embora chamado de monstro, a criação de Frankenstein é bondosa e articulada. Quase 200 anos depois, novos e verdadeiros doutores Franskensteins podem estar criando “monstros” para nos ajudar a testar novos remédios.

Desenvolver novos remédios é caro, principalmente pela alta taxa de falha no processo, ou seja, vários candidatos acabam não funcionando no fim e o dinheiro gasto vai pelo ralo. Parte do problema está na nossa falta de capacidade de fazer bons testes com esses candidatos em um momento inicial, para descobrir cedo se o novo composto é bom ou não, antes de perder tempo e dinheiro. Um remédio é testado primeiro em cultura de células, depois em animais, depois diversas vezes em diferentes grupos de pessoas. Mas novas técnicas em nanotecnologia, microfabricação e semicondutores irão revolucionar a área em um futuro próximo. A Ciência já é capaz de desenvolver os chamados órgãos-em-chip.

Os órgãos-em-chip são culturas de células extremamente complexas e capazes de simular o funcionamento de órgãos de modo mais próximo que uma cultura de célula tradicional poderia. Esses chips têm os diferentes tipos de célula de um tecido orgânico e pode ser estimulado eletricamente, receber fluxo de fluidos (como sangue) e ter coleta de vários tipos de dados em tempo real, dependendo dos objetivos da pesquisa. Por serem construídos em uma escala nanométrica, quantidades muito pequenas das drogas a serem testadas são necessárias, o que reduz os custos do experimento e permite que várias drogas sejam testadas rapidamente. Além disso, os órgãos-em-chip podem ser construídos para simular doenças.

Pesquisadores já foram capazes de construir um coração-em-chip, capaz de simular batimentos cardíacos, e testar os efeitos de remédios e estímulos elétricos. Eles também conseguiram usar esse coração para estudar efeitos da hipertensão e novos tratamentos para arritmia. Um pulmão-em-chip foi criado para estudo do edema pulmonar, que é o acúmulo de líquido nos pulmões levando a dificuldade para respirar. Os cientistas também desenvolveram um intestino-em-chip, capaz de simular o fluxo de comida e os movimentos peristálticos (que são os movimentos involuntários do órgão). O sistema pode ser usado para estudar os efeitos da microbiota (conjuntos de bactérias que vivem no intestino e que vem sendo cada vez mais estudada devido à sua importância para a saúde). Além disso, ele pode ser usado para o desenvolvimento de tratamentos para apendicite e intolerância à lactose e glúten. Por último, entender como os remédios são absorvidos pelo intestino também é essencial, e o intestino-em-chip poderá ajudar nessa etapa.

Será que em um futuro próximo vamos conseguir juntar diferentes órgãos-em-chip e analisar como um remédio é absorvido pelo intestino-em-chip, como é transportado pelos vasos-em-chip, como é modificado pelo fígado-em-chip e como age no câncer-em-chip? Essa nova “criatura” do Dr. Frankenstein irá nos ajudar, e muito, a testar novos remédios e a diminuir o uso de animais de laboratório em pesquisas da área farmacêutica.

Referência

SELIMOVIĆ, S.; DOKMECI, M. R.; KHADEMHOSSEINI, A. Organs-on-a-chip for drug discovery. Current opinion in pharmacology, v. 13, n. 5, p. 829–33, 2013.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Gorduras, gorduras, gorduras!


Aproveitando o bonde do óleo canola da última postagem, hoje fui atrás de informações sobre os efeitos das gorduras saturadas sobre a saúde do coração. Mas antes de começar, o que são gorduras saturadas?

Quando as pessoas e a mídia em geral falam “gorduras”, eles normalmente querem se referir aos ácidos graxos, que são moléculas compostas por uma cadeia de átomos de carbonos ligados em sequência. Os ácidos graxos podem ser classificados como saturados, monoinsaturados ou poli-insaturados. Os saturados (que então são chamados genericamente de gordura saturada) têm apenas ligações simples entre os átomos de carbono e são encontrados principalmente em fontes animais, como leite, banha de porco e naquela capinha da picanha (mas o óleo de cocô e de dendê também são ricos em gorduras saturadas). Os insaturados possuem ligações duplas entre os átomos de carbono; os monoinsaturados têm uma dupla ligação entre alguma dupla de carbono da cadeia e os poli-insaturados possuem mais de uma dupla ligação. As gorduras insaturadas estão presentes principalmente em fontes vegetais, como azeite, óleo canola e sementes, como a noz (mas também em peixes de água fria). Os ácidos graxos poli-insaturados da família ômega 3 e ômega 6 são essenciais, porque não podem ser produzidos pelo metabolismo do corpo humano, e assim devem ser obtidos através da alimentação. Essas diferenças entre gorduras saturadas e insaturadas não são visíveis a olho nu, mas causam uma mudança fácil de ver na estrutura da gordura: as gorduras animais são sólidas (manteiga) enquanto as vegetais são líquidas (azeite). Isso também faz com que as gorduras saturadas sejam mais resistentes ao calor e a oxidação.

Dito isso, atualmente foi reacendida a discussão sobre quais gorduras são mais saudáveis e, com isso, quais deveriam ser consumidas e quais deveriam ser evitadas. A recomendação médica geral é que deveríamos evitar as gorduras saturadas, pois elas aumentariam o risco de doenças do coração. Mas, recentemente, uma vertente começou a recomendar que comêssemos de modo mais parecido com nossos ancestrais pré-históricos, evitando o consumo de óleos vegetais e açúcares refinados, e comendo mais proteínas, gorduras saturadas e cereais integrais. De acordo com a hipótese, nosso corpo estaria mais adaptado a esse tipo de alimentação, já que passamos 250 mil anos comendo isso (até uns 50 anos atrás). Então, o que a Ciência diz? O que devemos comer?

Antes, precisamos atentar ao fato das fontes de gorduras saturadas também serem ricas em colesterol, enquanto os óleos vegetais não. Isso é importante quando pensamos em doenças do coração, mas é pouco abordado nos artigos que eu li.

A literatura científica ainda não chegou a uma conclusão final sobre o assunto. Algumas pesquisas mostram que pessoas que comem pouca gordura, mas principalmente do tipo saturada têm menores riscos de desenvolver problemas cardíacos (GRIEL; KRIS-ETHERTON, 2006). Porém, se a dieta for rica em açúcares, esse risco é muito maior (GRIEL; KRIS-ETHERTON, 2006). O contrário não é verdadeiro; trocar o açúcar por gordura saturada não faz diferença (MICHA; MOZAFFARIAN, 2010). Dessa forma, a substituição de gordura animal por açúcar (comer menos manteiga para comer mais pão) é pior do que continuar comendo gordura saturada (SIRI-TARINO et al., 2010). Porém, diversas pesquisas mostram que a substituição de gordura animal por gordura vegetal (do tipo poli-insaturada) pode levar a uma redução nos riscos de doenças do coração (ASTRUP et al., 2011; FLOCK; FLEMING; KRIS-ETHERTON, 2014; FOSTER; WILSON, 2013; MOZAFFARIAN; MICHA; WALLACE, 2010; SIRI-TARINO et al., 2010).

Embora tenha sido mostrado que o consumo de óleo de dendê (rico em gordura saturada) aumenta os níveis totais de colesterol (SUN et al., 2015), existem diversos trabalhos publicados indicando que a simples redução no consumo de gorduras saturadas não leva a melhoras no quadro de doenças cardíacas (RAVNSKOV et al., 2014). Assim, alguns cientistas argumentam que a recomendação médica de diminuir a ingesta de gordura pode levar as pessoas a compensarem comendo mais açúcares, o que pode ser pior para a saúde (DINICOLANTONIO; LUCAN; O’KEEFE, 2015). De fato, os estudos indicam que pode ser melhor comer menos açúcar o que comer menos gordura animal (KUIPERS et al., 2011).

Com base no que li, minha conclusão é que a gordura, saturada ou não, não parece ser o principal vilão do coração. Consumida com moderação, ela não parece causar problemas. Por outro lado, o consumo de açúcar refinado parece ser pior e a redução do seu consumo deve fazer mais bem a saúde. Então, em um churrasco, prefira comer aquela picanha suculenta, mas lembrando de abrir mão da sobremesa no final.

Referências

ASTRUP, A. et al. The role of reducing intakes of saturated fat in the prevention of cardiovascular disease: where does the evidence stand in 2010? American Journal of Clinical Nutrition, v. 93, n. 4, p. 684–688, 2011.

DINICOLANTONIO, J. J.; LUCAN, S. C.; O’KEEFE, J. H. The Evidence for Saturated Fat and for Sugar Related to Coronary Heart Disease. Progress in Cardiovascular Diseases, doi: 10.1016/j.pcad.2015.11.006, 2015.

FLOCK, M. R.; FLEMING, J. A.; KRIS-ETHERTON, P. M. Macronutrient replacement options for saturated fat: effects on cardiovascular health. Current Opinion in Lipidology, v. 25, n. 1, p. 67–74, 2014.

FOSTER, R. H.; WILSON, N. Review of the evidence for the potential impact and feasibility of substituting saturated fat in the New Zealand diet. Australian and New Zealand Journal of Public Health, v. 37, n. 4, p. 329–336, 2013.

GRIEL, A. E.; KRIS-ETHERTON, P. M. Beyond saturated fat: the importance of the dietary fatty acid profile on cardiovascular disease. Nutrition Reviews, v. 64, n. 5 Pt 1, p. 257–262, 2006.

KUIPERS, R. S. et al. Saturated fat, carbohydrate, and cardiovascular disease. The Netherlands Journal of Medicine, v. 69, n. 9, p. 372–378, 2011.

MICHA, R.; MOZAFFARIAN, D. Saturated fat and cardiometabolic risk factors, coronary heart disease, stroke, and diabetes: a fresh look at the evidence. Lipids, v. 45, n. 10, p. 893–905, 2010.

MOZAFFARIAN, D.; MICHA, R.; WALLACE, S. Effects on Coronary Heart Disease of Increasing Polyunsaturated Fat in Place of Saturated Fat: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. PLoS Medicine, v. 7, n. 3, p. e1000252, 2010.

RAVNSKOV, U. et al. The Questionable Benefits of Exchanging Saturated Fat With Polyunsaturated Fat. Mayo Clinic Proceedings, v. 89, n. 4, p. 451–453, 2014.

SIRI-TARINO, P. W. et al. Saturated fat, carbohydrate, and cardiovascular disease. American Journal of Clinincal Nutrition, v. 91, n. 3, p. 502–509, 2010.

SUN, Y. et al. Palm Oil Consumption Increases LDL Cholesterol Compared with Vegetable Oils Low in Saturated Fat in a Meta-Analysis of Clinical Trials. The Journal of Nutrition, v. 145, n. 7, p. 1549–58, 2015.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Sala de cinema da torre: O Jogo da Imitação


Esse é o melhor filme sobre a vida de um cientista que eu vi nos últimos anos e que junta duas coisas que muito me interessam: ciência e a Segunda Guerra Mundial! “O Jogo da Imitação” foi estrelado por Benedict Cumberbatch, no papel de Alan Turing, Keira Knightley, que dá vida à Joan Clarke, e Matthew Goode, que interpreta Conel Hugh O'Donel Alexander. Os três personagens foram criptoanalistas (pessoas especializadas em decifrar códigos) a serviço da Inglaterra e que tiveram papel fundamental na Segunda Guerra Mundial. O filme foi escrito por Graham Moore, com base no livro “Alan Turing: The Enigma”, de Andrew Hodges, e ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado esse ano. E Morten Tyldum foi o diretor.

O filme é uma espécie de biografia do matemático Alan Turing, mas que tem como foco principal o seu trabalho em Bletchley Park, onde ele se dedicou a decifrar as comunicações nazistas criptografadas com a máquina Enigma. Essa máquina funcionava como uma espécie de máquina de escrever capaz de “trocar” as letras quando digitadas, através de uma série de rotores. Quando posicionados corretamente (de acordo como a mensagem foi originalmente digitada), o código era decifrado. Com a quantidade de rotores da máquina, a Enigma tinha aproximadamente 159 quintilhões de soluções possíveis, tornando impossível quebrar o código manualmente. Para piorar, os nazistas trocavam a posição dos rotores a cada 24 horas, mudando o código todos os dias.

Turing e sua equipe construíram uma máquina eletromagnética capaz de processar as informações das mensagens codificadas e testar as quase infinitas possibilidades de posicionamentos dos rotores da Enigma muito mais rápido que manualmente. Essa máquina era um computador rudimentar e tem importância fundamental no início ciência computacional. A máquina decifradora da Enigma de Turing revelou informações essenciais da estratégia de guerra nazista e foi importante nos rumos de diversas batalhas na década de 1940. Especialistas calculam que Turing e sua equipe reduziram o tempo da Segunda Guerra Mundial em pelo menos dois anos.

Mas além de mostrar o lado cientista e gênio de Turing, o filme também aborda seu lado humano, com seus problemas de relacionamento com a equipe, dificuldade em receber ordens de superiores em um tempo de guerra e os empecilhos enfrentados por ser homossexual. Depois da guerra, Turing foi condenado por indecência devido a relacionamento com outro homem, e foi obrigado a receber um tratamento hormonal para reduzir sua libido (um exemplo dos absurdos da sociedade inglesa na década de 1950). Em 2013, a rainha Elizabeth II concedeu perdão póstumo a Turing, depois de grande pressão popular. 
 
Excelente filme a ver visto, e está disponível no catálogo brasileiro do Netflix! Acho, inclusive, que vou rever hoje...

Não, o óleo canola não é um veneno


Antes de começar, gostaria de dizer que essa postagem é uma resposta a um e-mail que recebi de um leitor, pedindo mais informações sobre o óleo canola. Se você pensa em algum tema que seria interessante de ser discutido aqui no blogue, mande um e-mail para aportademarfim@gmail.com ou deixe um comentário aqui mesmo. Prometo que vou dar prioridade em escrever sobre o que for sugerido. Então, começando...

Se você procurar um pouco na Internet, vai encontrar várias postagens em blogues sobre o óleo canola. A maioria delas vai falar que ele é tóxico, que deveria ser proibido e que as pessoas que vendem deveriam ser presas (sim, isso está escrito). Mas, a grande maioria dessas postagens não tem nenhuma referência científica séria como embasamento. Também temos muitas cópias sem nenhum tipo de referência ou agradecimento ao autor original (isso é plágio; você que faz isso é que deveria ser preso). Encontrei apenas uma postagem moderada, que avaliava possíveis benefícios e problemas no consumo de óleo canola. Assim, fui atrás da Ciência de verdade sobre ele.

Primeiro, o que é o óleo canola? Na Internet, você vai achar um monte de gente dizendo que não existe uma planta canola, e isso é verdade. E, então, essas pessoas vão dizer que o óleo é ruim para a saúde por que a canola não existe, o que simplesmente não faz nenhum sentido. O óleo canola é extraído da semente da colza, uma planta de uma família que inclui outros vegetais amplamente utilizados na alimentação, como brócolis, repolho e mostarda. O óleo da colza era muito usado no século XIX para a produção de lubrificantes para motores a vapor e na iluminação pública (à base de lampiões na época). Hoje, ele é um dos principais óleos usados na produção de biodiesel. A colza não era usada na alimentação de pessoas nesse período, devido ao seu gosto amargo. O óleo também possuía uma alta concentração de uma gordura chamada ácido erúcico. Alguns estudos com animais na década de 1970 indicaram que o consumo de altas doses dessa gordura poderia ser tóxica ao coração, embora uma correlação com humanos nunca tenha sido mostrada. Além disso, o ácido erícico é um dos componentes do famoso óleo de Lorenzo, usado para tratar a adrenoleucodistrofia. E embora em altas concentrações, o ácido erícico nunca se mostrou tóxico para os pacientes que usavam o óleo de Lorenzo. Também na década de 1970, cientistas canadenses fizeram diversos cruzamentos entre variedades de colza para conseguir uma planta com sementes com um sabor melhor e com menos ácido erícico. Quero deixar claro que, nesse momento, as novas colza geradas não eram transgênicas; elas eram apenas frutos do cruzamento de plantas de existiam na natureza, em um processo chamado de seleção artificial. Essas plantas foram criadas da mesma forma como as raças de cachorros atuais foram criadas; os criadores cruzavam cachorros diferentes e escolhiam os filhotes com as melhores características. Isso foi feito por muito tempo, até termos cachorros tão diferentes como um dogue alemão e um pincher, que não são cachorros transgênicos. Surgia assim o famoso óleo canola, que é uma sigla para CANada Oil Low Acid (ou óleo com pouco ácido (erícico) do Canadá). Hoje o óleo tem pouquíssima concentração de ácido erícico, e é rico em gorduras ômega 6 e ômega 3.

OK, mas ele faz mal para a saúde? Uma das coisas que estão pela Internet diz que o óleo canola é ruim porque tem ácido erícico. Que fique claro que isso é uma besteira, visto que a quantidade de ácido erícico é muito baixa, ele também está presente em outros alimentos, como a mostrada, que não mata, e existem poucas evidências de que o ácido erícico seja tóxico para humanos. Mas o que temos cientificamente comprovado sobre os efeitos do óleo canola para a saúde?

Em 2013, um grupo de pesquisadores do Canadá fez uma revisão da literatura científica sobre o assunto e concluiu que o consumo de óleo canola por pessoas leva a uma redução dos níveis de colesterol do sangue, incluindo o “colesterol ruim”, LDL. Além disso, o óleo melhora o quadro de diabetes de pessoas com a doença e é capaz de bloquear o crescimento de tumores cancerígenos em animais de laboratório (não existem estudos em humanos ainda). O óleo canola também é rico em antioxidantes (LIN et al., 2013). Depois de 2013, outras pesquisas foram publicadas confirmando os resultados anteriores. Os trabalhos mostraram que o consumo de óleo canola reduz os níveis de colesterol total e do “colesterol ruim”, e de triglicerídeos, além de aumentar o “colesterol bom”, HDL, e reduz a pressão arterial (JONES et al., 2014; KRUSE et al., 2015). Ele também ajuda no combate ao diabetes do tipo II, que é associado ao excesso de peso (JENKINS et al., 2014). O consumo de óleo canola também tem um efeito anti-inflamatório, que pode ajudar no tratamento de doenças (BARIL-GRAVEL et al., 2015; KRUSE et al., 2015). Além disso, foram mostradas redução nos danos causados ao fígado (KRUSE et al., 2015) e da ligação do “colesterol ruim” à parede dos vasos sanguíneos (JONES et al., 2015), indicando que o óleo canola pode ajudar a evitar a arteriosclerose, que é o acúmulo de gordura nas artérias, impedindo o fluxo de sangue, o que pode causar infarto e AVC.

Por outro lado, alguns trabalhos mostraram que o consumo de óleo de canola pode levar a um aumento de peso (MEDEIROS JÚNIOR et al., 2014) e um acúmulo de gordura visceral (aquela barriga de chope), que é a mais perigosa em relação ao desenvolvimento de diabetes (BAUTISTA et al., 2014). Nesse último trabalho, os pesquisadores também encontraram um início de danos nos vasos sanguíneos (BAUTISTA et al., 2014).

Então, de um modo geral, parecem existir muito mais benefícios do que problemas no consumo de óleo canola. Mas tem um pequeno problema: a maior parte dos estudos sobre os efeitos do óleo são pagos pela Canola Council of Canada, uma empresa que envolve produtores de colza, exportadores do óleo, indústria de alimentos e o próprio governo canadense. Isso acende em mim uma grande luz vermelha de alerta! Até onde posso confiar que esses cientistas não estão escondendo possíveis malefícios do óleo canola e só estão divulgando as coisas boas? Não me sinto a vontade com esse grande conflito de interesses.

Minha conclusão é a seguinte: não há nenhum trabalho mostrando que o óleo canola é mais prejudicial à saúde do que outros óleos de origem vegetal, como azeite, soja ou girassol. Existem trabalhos mostrando vários benefícios, mas financiados pelos produtores de colza, o que é um pouco suspeito. Então, a única coisa que posso afirmar é que o óleo canola não é um veneno.

Referências:

BARIL-GRAVEL, L. et al. Docosahexaenoic acid-enriched canola oil increases adiponectin concentrations: a randomized crossover controlled intervention trial. Nutrition, Metabolism, and Cardiovascular Diseases : NMCD, v. 25, n. 1, p. 52–9, 2015.

BAUTISTA, R. et al. Early endothelial nitrosylation and increased abdominal adiposity in Wistar rats after long-term consumption of food fried in canola oil. Nutrition, v. 30, n. 9, p. 1055–1060, 2014.

JENKINS, D. J. A. et al. Effect of Lowering the Glycemic Load With Canola Oil on Glycemic Control and Cardiovascular Risk Factors: A Randomized Controlled Trial. Diabetes Care, v. 37, n. 7, p. 1806–1814, 2014.

JONES, P. J. H. et al. DHA-enriched high – oleic acid canola oil improves lipid profile and lowers predicted cardiovascular disease risk in the canola oil multicenter randomized controlled trial 1 – 3. American Journal of Clinical Nutrition, v. 100, n. 1, p. 88–97, 2014.

JONES, P. J. H. et al. High-oleic canola oil consumption enriches LDL particle cholesteryl oleate content and reduces LDL proteoglycan binding in humans. Atherosclerosis, v. 238, n. 2, p. 231–238, 2015.

KRUSE, M. et al. Dietary rapeseed/canola-oil supplementation reduces serum lipids and liver enzymes and alters postprandial inflammatory responses in adipose tissue compared to olive-oil supplementation in obese men. Molecular Nutrition & Food Research, v. 59, n. 3, p. 507–19, 2015.

LIN, L. et al. Evidence of health benefits of canola oil. Nutrition Reviews, v. 71, n. 6, p. 370–385, 2013.

MEDEIROS JÚNIOR, J. L. et al. Lard and/or canola oil-rich diets induce penile morphological alterations in a rat model. Acta Cirúrgica Brasileira, v. 29, n. Suppl. 1, p. 39–44, 2014.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A fosfoetanolamina é melhor que o leite de janaúba?


A fosfoetanolamina ainda está bombando na Internet e na mídia, que discutem, com pouco conehcimento técnico, se o composto funciona ou não contra o câncer. A pressão popular em diferentes esferas foi tão grande que o Governo Federal anunciou recentemente que vai disponibilizar R$ 10 milhões através do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) para o estudo da fosfoetanolamina durante três anos. Dez milhões de reais é um bocado de dinheiro! Para vocês terem noção, faço a seguinte comparação: o maior edital de financiamento para pesquisas científicas da história do Brasil foi a criação dos chamados Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (ou INCTs). Grupos de pesquisa de todo o país se juntaram para escrever grandes projetos científicos, com centenas de páginas e em inglês, já que os projetos foram avaliados por julgadores de fora do Brasil, para garantir a idoneidade do processo. Dezenas de INCTs foram criados, cada um deles com centenas de pesquisadores nacionais e estrangeiros, mas muitos outros não tiveram seus projetos aprovados. O volume de recursos que será distribuído para cada um dos Institutos aprovados na próxima chamada será de no máximo R$ 10 milhões, por cinco anos. Ou seja, os estudos com fosfoetanolamina vão receber, sem concorrência, mais dinheiro que qualquer INCT. Ótimo, mas injusto!

Por que a fosfoetanolamina? Quantos outros compostos anticâncer estão sendo estudados no país, com recursos cada vez mais escassos? Quanto desse recurso poderia ser investido no já existente Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Controle do Câncer, com sede no INCA? Por que não disponibilizar então 1 % desse dinheiro (cem mil reais) para estudar a ação antitumoral do leite de janaúba? Me explico.

A janaúba ou janaguba (que atende pelo nome científico Himatanthus drasticus) é uma planta que ocorre no interior do Brasil e o seu látex (aquele leite branco que escorre da planta quando ela é cortada ou ferida) é usado como remédio natural. Em feiras no Nordeste, é possível encontrar garrafadas do leite de janaúba, uma mistura do látex da planta e água, que os barraqueiros indicam como tratamento natural para o câncer e outras doenças. Charlatanismo? Feitiçaria? Talvez não.

Grupos de pesquisa no Ceará já mostraram que um composto extraído do látex da janaúba tem ação anti-inflamatória em um modelo de estudo usando camundongos (LUCETTI et al., 2010). Em outro estudo, proteínas do látex da planta se mostraram capazes de inibir o crescimento de tumores quando injetadas em animais, provavelmente pelo seu efeito de estimular o sistema imune, responsável pela defesa do corpo. Porém, a janaúba não mostrou efeito quando ingerida ou quando testada em células de câncer em cultura (MOUSINHO et al., 2011). Então? A fosfoetanolamina é melhor que o leite de janaúba? Vale o investimento de 10 milhões de reais? Ou deveríamos dividir meio a meio; cinco milhões para a fosfoetanolamina e cinco milhões para janaúba?

Acho que deveria ser feito do jeito como sempre foi feito: o MCTI, através do Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento (CNPq), abre um edital de fomento à pesquisa para o estudo de novas moléculas antitumorais, com recursos de 10 milhões de reais. Os grupos de pesquisa da área escrevem seus projetos e os submetem a análise. Os melhores são escolhidos e financiados. Talvez a fosfoetanolamina não seja nossa melhor aposta; talvez ela só tenha o melhor marketing.

Referências:

LUCETTI, D. L. et al. Anti-inflammatory effects and possible mechanism of action of lupeol acetate isolated from Himatanthus drasticus (Mart.) Plumel. Journal of Inflammation, v. 7, n. 1, p. 60, 2010.

MOUSINHO, K. C. et al. Antitumor effect of laticifer proteins of Himatanthus drasticus (Mart.) Plumel - Apocynaceae. Journal of Ethnopharmacology, v. 137, n. 1, p. 421–426, 2011.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sala de cinema da Torre: A Teoria de Tudo


“A Teoria de Tudo” é um filme biográfico sobre o (talvez) físico teórico e cosmólogo mais famoso da atualidade, Stephen Hawking. O filme foi escrito por Anthony McCarten, com base no livro da ex-esposa do cientista, Jane Wilde, onde ela conta sobre seu relacionamento com Hawking e como os dois enfrentaram a doença neurodegenerativa do físico. O filme foi dirigido por James Marsh e estrelado por Eddie Redmayne (que interpreta Hawking, ganhando o Oscar de Melhor Ator) e Felicity Jones, que dá vida à Jane Wilde. Estreou no Brasil no início do ano.

“A Teoria de Tudo” foi um dos filmes que mais me criou expectativas esse ano, e um dos poucos que vi no cinema depois que assinei Netflix. Mas talvez pelo excesso de expectativas, acabei me decepcionando um pouco. O filme, com base no relato de Jane, acaba, obviamente, se focando demais na vida pessoal de Hawking, e sua trajetória científica fica em um plano secundário. Seus estudos no doutorado e suas pesquisas sobre os buracos negros são brevemente mostradas no longa, e só. Outras questões sobre a sua vida com cientista são completamente negligenciadas: como Hawking trabalhava, como lidava com as alunos que orientava e com outros professores, como ministrava suas aulas na universidade, etc...

No final, o filme é uma grande história de superação. No caso de um cientista, mas poderia ser de um atleta de alta performance, ou de uma criança pobre do Paquistão. Mas pelo menos fico feliz em saber que cientistas de verdade estão sendo representados no cinema, e que eles podem ser pessoas normais. Bem, Hawking está longe de uma pessoa normal (o cara é um gênio), mas acho que vocês pegaram a ideia. E a atuação de Redmayne é incrível!