terça-feira, 20 de outubro de 2015

Luz engorda?


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Mas antes uma palavra dos nossos patrocinadores: essa postagem faz parte de uma blogagem coletiva, organizada pelo Roberto Takata do Gene Repórter, devido a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia de 2015, cujo tema é “Luz, Ciência e Vida”. Abaixo segue a lista com todos os canais de divulgação científica que estão participando:

Ciência Ao Natural

Biorritmo

A Bela Ciência

Ceticismo, Ciência e Tecnologia

4x15

Evolution Academy

Coluna Ciência

Metodologia Científica e Tecnologia

Do Nano ao Macro

Cultura Científica

Física na Veia!

Rainha Vermelha

Rascunhos Científicos Beta Final

Curiozoo

A Liga dos Cientistas Extra Ordinários

Dinobótico

Pesquisa em Biomedicina

Poluição Luminosa

Nightfall in Magrathea

Gênero e Ciências

Blog Cético

Psiquiatria e Sociedade

Blog Divulga Ciência

Um A+ de BioCiências

Dragões de Garagem

DNA Cético

Rock com Ciência

Vida das Aves

#SciCast

Evolucionismo

Vi(ver) n_a CIdade

Sonhos do Neuro

Genética Agronômica

Café Na Bancada

PET Ciências

Astronomia no Zênite

Sofia Moutinho

RSG-Brazil
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Algumas pessoas clamam que podem viver apenas de luz, sem comer qualquer coisa. Isso é bioquimicamente impossível! Nós, seres humanos, não temos pigmentos capazes de absorver a energia do Sol de modo que ela seja quimicamente utilizável, como a clorofila da folha das plantas. E mesmo que nós fôssemos verdes e conseguíssemos usar a luz do Sol, muitas vitaminas, aminoácidos e gorduras são essenciais para nós. Isso quer dizer que nosso corpo não consegue produzir e nós precisamos comer alimentos que contenham essas substâncias para continuarmos saudáveis (e vivos).


Dito isso, posso fazer uma suposição que parece tão absurda quanto a do parágrafo acima: é possível que a luz engorde! Pelo menos luz na hora errada. Essa foi uma hipótese levantada por pesquisadores americanos no ano passado (FONKEN; NELSON, 2014).


Existe uma correlação bem interessante entre o nível de obesidade de uma população e o nível de poluição luminosa (que é o quanto de luz artificial é usada à noite) do lugar onde ela vive. Porém, como eu gosto de reforçar, uma correlação não necessariamente indica uma relação de causa e efeito, ou seja, luz e obesidade podem estar juntas por acaso, ou a luz pode vir junto com outro fator que é a causa real. O que seria a explicação mais provável se pensarmos que junto com a energia elétrica que alimenta as luzes, temos geladeiras e supermercados, e lanchonetes de fast-food vendendo comidas ricas em gordura e pobres em nutrientes. Então? Será que existe mesmo uma relação entre luz e obesidade?

O nosso organismo é regulado por diversos fatores, entre eles, pelo chamado relógio biológico, ou ritmo circadiano. (Todo mundo vai estar falando dele essa semana, já que o horário de verão acabou de começar.) Quem dá corda no relógio biológico é a luz; ela é sentida pelos olhos e transmitida para um grupo de neurônios no cérebro. Esses neurônios então mantêm o relógio funcionando e passam a informação de “que horas são” para o resto do corpo. O relógio biológico regula várias funções no corpo, como a produção de hormônios, ciclo de sono e metabolismo. Mesmo na escuridão completa, nosso relógio pode se manter sincronizado (sem adiantar ou atrasar) por vários dias. O problema pode começar quando a poluição luminosa nas cidades é tão grande que o relógio biológico está sempre “recebendo corda”, sendo estimulado pela luz durante dia e noite. Mas existe algum resultado científico que mostre a influência da luz continua sobre o relógio biológico e metabolismo do corpo? Existem muitos, tanto em animais de laboratório quando em seres humanos.

Se camundongos forem mantidos sob luz fraca, mas constante, durante a noite, eles ganham peso, principalmente em gordura, além de terem maior tendência a desenvolver diabetes (COOMANS et al., 2013). Porém, esses efeitos podem ser, pelo menos em parte, revertidos se os animais forem colocados novamente no escuro durante a noite (FONKEN; WEIL; NELSON, 2013).

Em humanos, dados de epidemiologia mostram que pessoas que trabalham em turnos (e logo trabalham a noite algumas vezes por semana) têm maiores chances de desenvolverem Síndrome Metabólica, quadro clínico que pode associar obesidade, pressão alta, diabetes, colesterol alto e entupimento de vasos sanguíneos (PIETROIUSTI et al., 2010). Além disso, nesses trabalhadores, o índice de massa corporal (relação entre o peso e a altura, que é usada para estimar o quão gordo um indivíduo está, abreviado IMC) mostra uma grande correlação com há quantos anos a pessoa trabalha em turno (PARKES, 2002). Nas pessoas que só trabalham durante o dia, o IMC se correlaciona principalmente com a idade da pessoa. Mais ainda: idosos que dormem sob uma luz fraca têm maior peso e IMC, barriga maior, e maiores níveis de triglicerídeos e colesterol no sangue (OBAYASHI et al., 2013).

Os pesquisadores acreditam que a poluição luminosa durante a noite desregula o relógio biológico e os níveis de hormônios que controlam parte do metabolismo (SCHEER et al., 2009). Por exemplo, os níveis de melatonina, um hormônio relacionado ao ciclo do sono, são diminuídos pelo estímulo da luz (BRAINARD; ROLLAG; HANIFIN, 1997). E a melatonina ajuda a reduzir o peso, os níveis de açúcar no sangue e os riscos de diabetes em ratos gordos (AGIL et al., 2012). Outro hormônio afetado pela luz é o cortisol; mas nesse caso a luz aumenta a quantidade dele (SCHEER; BUIJS, 1999). E níveis altos de cortisol estão relacionados à obesidade em diversos quadros clínicos (ROSMOND; DALLMAN; BJÖRNTORP, 1998).

Ou seja, se você está fazendo aquela dieta esperta para o projeto verão, pode ser uma boa ideia desligar a televisão e o computador do quarto na hora de dormir.

Referências


AGIL, A. et al. Melatonin improves glucose homeostasis in young Zucker diabetic fatty rats. Journal of pineal research, v. 52, n. 2, p. 203–210, 2012.

BRAINARD, G. C.; ROLLAG, M. D.; HANIFIN, J. P. Photic regulation of melatonin in humans: ocular and neural signal transduction. Journal of Biological Rhythms, v. 12, n. 6, p. 537–546, 1997.

COOMANS, C. P. et al. Detrimental effects of constant light exposure and high-fat diet on circadian energy metabolism and insulin sensitivity. The FASEB Journal, v. 27, n. 4, p. 1721–1732, 2013.

FONKEN, L. K.; NELSON, R. J. The effects of light at night on circadian clocks and metabolism. Endocrine Reviews, v. 35, n. 4, p. 648–670, 2014.

FONKEN, L. K.; WEIL, Z. M.; NELSON, R. J. Dark nights reverse metabolic disruption caused by dim light at night. Obesity, v. 21, n. 6, p. 1159–1164, 2013.

OBAYASHI, K. et al. Exposure to light at night, nocturnal urinary melatonin excretion, and obesity/dyslipidemia in the elderly: a cross-sectional analysis of the HEIJO-KYO study. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 98, n. 1, p. 337–344, 2013.

PARKES, K. R. Shift work and age as interactive predictors of body mass index among offshore workers. Scandinavian Journal of Work, Environment and Health, v. 28, n. 1, p. 64–71, 2002.

PIETROIUSTI, A et al. Incidence of metabolic syndrome among night-shift healthcare workers. Occupational and environmental medicine, v. 67, n. 1, p. 54–57, 2010.

ROSMOND, R.; DALLMAN, M. F.; BJÖRNTORP, P. Stress-related cortisol secretion in men: Relationships with abdominal obesity and endocrine, metabolic and hemodynamic abnormalities. Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, v. 83, n. 6, p. 1853–1859, 1998.

SCHEER, F. A J. L. et al. Adverse metabolic and cardiovascular consequences of circadian misalignment. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, v. 106, n. 11, p. 4453–4458, 2009.

SCHEER, F. A.; BUIJS, R. M. Light affects morning salivary cortisol in humans. Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v. 84, n. 9, p. 3395–3398, 1999.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Não, a fosfoamina não é (ainda) a cura do câncer


Em agosto desse ano, uma reportagem do portal G1 mostrou a luta de pacientes com câncer na justiça para receber cápsulas contendo o composto fosfoamina (na verdade, fosfoetanolamina) que supostamente curaria a doença. O “remédio” era produzido e distribuído pelo campus da Universidade de São Paulo na cidade de São Carlos, mas a distribuição foi suspensa por decisão da própria reitoria, já que o composto não é registrado na ANVISA (todo remédio comercializado no país deve ser registrado) e não teve eficiência comprovada. Porém, alguns dos pacientes tratados com a fosfoamina relatam que foram curados e trazem exames e outras coisas para provar. Segundo o professor aposentado Gilberto O. Chierice (que participou dos estudos com a substância), “A fosfoamina está aí, à disposição, para quem quiser curar câncer”. Mas, vamos devagar, professor Gilberto; se a fosfoamina realmente é a cura para o câncer, por que não foi pedido o registro na ANVISA? O Governo Federal poderia produzir grande quantidade da substância (que é barata) na indústria farmacêutica pública, como em Farmanguinhos, no Rio de Janeiro, e economizar muito dinheiro do SUS que é gasto em quimioterapia. Se tempos de corte de orçamento seria uma economia muito bem-vinda, por que não se faz? E a pergunta primordial: a fosfoamina realmente cura o câncer?

Eu já escrevi isso aqui, mas não custa repetir: um remédio “funcionar” em meia dúzia de pessoas não significa que ele realmente funciona. Acreditar que um remédio funciona com base em relatos não científicos de pessoas que se dizem curadas é muito temerário por alguns motivos. Primeiro, nesses casos, não existe um grupo de controle. Quando um remédio é testado de verdade, metade dos pacientes toma o remédio enquanto a outra metade toma uma “pílula de farinha”, sem nenhum princípio ativo. Para o remédio ser considerado eficaz, ele precisar curar significativamente mais pessoas que a pílula de farinha. Sim, porque a pílula de farinha pode “curar” pessoas, o que é chamado de efeito placebo. Na verdade, as pessoas podem acabar se curando de uma doença sozinhas, sem ajuda de remédios, pela própria resistência natural do corpo. O grupo de pessoas que toma a pílula falsa é importante então para descontar esse efeito. Além disso, no caso da fosfoamina, é possível que várias pessoas estivessem fazendo quimioterapia ao mesmo tempo. Isso torna impossível saber se as pessoas se curaram via fosfoamina ou via quimioterapia (ou um somatório das duas coisas). Por último, as pessoas que não se curam com um dado remédio nessas condições dificilmente fazem um relato no Facebook ou em qualquer outro lugar dizendo que com elas não funcionou (no caso de uma doença terminal como câncer, isso é até mais evidente, porque, infelizmente, os pacientes morrem). Então temos uma resposta viciada: parece que o remédio é muito bom e funciona em todo mundo porque só vemos relatos positivos das pessoas nas redes sociais, mas isso acontece simplesmente porque as pessoas nas quais o remédio não funcionou não deixam relatos.

Dito isso, vamos à história da fosfamina. Todas as notícias vinculadas na imprensa contam com declarações do professor Chierice. Busquei seu currículo na base Lattes do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento, órgão do Governo Federal, vinculado ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação). Ele é químico, com doutorado em química analítica pela USP e tem um extenso currículo, com mais 80 artigos científicos publicados, a grande maioria em estudos de extração e atividade de óleos essenciais retirados de plantas. OK, e a fosfamina? Ela só aparece no currículo do professor a partir de 2011, em seis trabalhos publicados. O problema é que em todos esses artigos o autor correspondente, que normalmente é considerado o pesquisador líder do grupo e principal responsável pela pesquisa, é o Professor Durvanei A. Maria, do Instituto Butantã, e não o Professor Chierice. O currículo do Professor Maria também é invejável; doutor em imunologia pela USP, ele tem mais de cem artigos científicos publicados, principalmente em estudos com câncer.

Então, temos a seguinte situação ao meu ver: o Professor Chierice é especialista em estudos de química de extratos vegetais e teve participação nos estudos com a fosfoamina (eu não posso dizer se foi grande ou pequena), e o Professor Maria é especialista na relação entre o sistema de defesa do corpo e o câncer e é o líder das pesquisas com a fosfoamina. Para mim, é óbvio que a voz a ser ouvida sobre a produção e distribuição da fosfoamina pela USP de São Carlos deveria ser a do Professor Maria. Porém, não existe nenhuma notícia divulgada pela mídia com uma entrevista com ele; só quem é entrevistado (ou quer falar) é o professor Chierice. Isso já o suficiente para me deixar com uma pulga atrás da orelha sobre a eficácia da fosfoamina no tratamento do câncer: por que o principal pesquisador do estudo não manifestou suas opiniões sobre o caso, nem que fosse simplesmente para aproveitar a repercussão do seu trabalho? Estranho, não?

Então, mérito e entrevistas a parte, o que as pesquisas do Professor Maria dizem sobre o efeito da fosfoamina sobre os tumores? A fosfamina tem ação tanto sobre células tumorais mantidas em cultura quanto em animais com câncer. Nas células em cultura, o composto mata parte das células, sem afetar células normais, além de reduzir a multiplicação das células tumorais. Segundo os artigos publicados, a fosfoamina age sobre as mitocôndrias, que são estruturas celulares responsáveis por fornecer energia química para o funcionamento celular. O composto atrapalha, de alguma forma ainda não compreendida, a atividade das mitocôndrias e, sem energia, a célula acaba “se matando”. Em animais com câncer, o tratamento com a fosfoamina aumentou o tempo de vida, reduziu a perda de peso (sintoma comum em pacientes com câncer em estágios avançados) e a capacidade dos tumores de se espalhar pelo corpo, o dano sobre o fígado e o estresse causado por radicais livres. Foram testados diferentes tipo de câncer, como de mama, de pulmão, de pele, e leucemia (FERREIRA et al., 2013a, 2011, 2012a, 2012b, 2013b, 2013c).

Isso quer dizer que a fosfoamina é a cura do câncer? Não, pelo menos ainda. A fosfoamina ainda não foi sistematicamente testada em pacientes humanos, o que impede especulações sobre sua capacidade antitumoral, embora os testes pré-clínicos sejam bastante animadores. Mas vamos ter que esperar alguns anos até a fosfoamina ser testada de maneira correta e receber registro na ANVISA (isso se o composto realmente for eficaz). Além disso, pelo menos 40 artigos foram publicados só esse ano descrevendo efeitos antitumorais de diferentes compostos, entre eles licopeno (presente no tomate) (KIM; KIM, 2015), extrato de gengibre (AKIMOTO et al., 2015) e chá preto (KOŇARIKOVÁ et al., 2015), e a artemisinina (remédio antimalária que rendeu o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia a chinesa Youyou Tu essa semana). Se 40 compostos anticâncer são descritos por ano, por que as pessoas ainda morrem por causa da doença? Porque nem todos são eficientes em humanos, nem todos são bem absorvidos ou metabolizados pelo corpo, podem ser tóxicos, etc...

Mas são 40 pontas de esperança de vencer a doença a cada ano.

Referências

AKIMOTO, M. et al. Anticancer Effect of Ginger Extract against Pancreatic Cancer Cells Mainly through Reactive Oxygen Species-Mediated Autotic Cell Death. Plos One, v. 10, n. 5, p. e0126605, 2015.

FERREIRA, A K. et al. Synthetic phosphoethanolamine has in vitro and in vivo anti-leukemia effects. British Journal of Cancer, v. 109, n. 11, p. 2819–2828, 2013a.

FERREIRA, A. K. et al. Synthetic Phosphoethanolamine Induces Apoptosis Through Caspase-3 Pathway by Decreasing Expression of Bax/Bad Protein and Changes Cell Cycle in Melanoma. Journal of Cancer Science & Therapy, v. 3, n. 3, p. 53–59, 2011.

FERREIRA, A. K. et al. Anticancer effects of synthetic phosphoethanolamine on Ehrlich ascites tumor: an experimental study. Anticancer Research, v. 32, n. 1, p. 95–104, 2012a.

FERREIRA, A. K. et al. Synthetic phosphoethanolamine a precursor of membrane phospholipids reduce tumor growth in mice bearing melanoma B16-F10 and in vitro induce apoptosis and arrest in G2/M phase. Biomedicine & Pharmacotherapy, v. 66, n. 7, p. 541–548, 2012b.

FERREIRA, A. K. et al. Anti-Angiogenic and Anti-Metastatic Activity of Synthetic Phosphoethanolamine. PLoS ONE, v. 8, n. 3, p. e57937, 2013b.

FERREIRA, A. K. et al. Synthetic phosphoethanolamine induces cell cycle arrest and apoptosis in human breast cancer MCF-7 cells through the mitochondrial pathway. Biomedicine & Pharmacotherapy, v. 67, n. 6, p. 481–487, 2013c.

KIM, M. J.; KIM, H. Anticancer Effect of Lycopene in Gastric Carcinogenesis. Journal of cancer prevention, v. 20, n. 2, p. 92–6, 2015.

KOŇARIKOVÁ, K. et al. Anticancer effect of black tea extract in human cancer cell lines. SpringerPlus, v. 4, n. 1, p. 127, 2015.