segunda-feira, 22 de junho de 2015

Excesso de uma proteína pode está relacionado à esquizofrenia


A esquizofrenia é um transtorno mental que atinge cerca de 1 % da população mundial. A doença tem sintomas graves como alucinações e delírios, problemas de comunicação durante as crises, catatonia e depressão. O tratamento é feito à base de remédios antipsicóticos, mas nos casos mais graves, internações involuntárias podem ser necessárias. Porém, as causas da esquizofrenia ainda são muito pouco conhecidas. Teorias que envolvem psicanálise, bioquímica, neurobiologia e genética se misturam, e é provável que todas estejam certas em determinado grau.

Pela parte genética, diversos genes já foram relacionados com a esquizofrenia, entre eles o chamado NOS1AP. Problemas nesse gene foram identificados em pessoas com esquizofrenia familiar no Canadá e na China. Mas como o NOS1AP está envolvido na doença ainda era um mistério e foi o alvo da pesquisa de um grupo de pesquisadores americanos e franceses, publicada no ano passado.

Os cientistas usaram técnicas de biologia molecular para alterar a atividade do gene NOS1AP em camundongos, fazendo com que os neurônios tivessem mais ou menos da proteína produzida por esse gene. Os resultados mostraram que esse gene regula a movimentação dos neurônios durante o desenvolvimento do cérebro do embrião. Quando a atividade do gene foi aumentada, a migração dos neurônios foi reduzida, dificultando a formação de pontos de comunicação entre eles. Por outro lado, quando a atividade do gene foi diminuída, a migração das células aumentou.

Os dados obtidos com camundongos parecem ter um bom paralelo com o visto em pacientes humanos. Os cérebros de pessoas com esquizofrenia apresentam problemas nos pontos de comunicação entre os neurônios, o que pode ser causado por um excesso de NOS1AP, embora isso ainda seja uma especulação. Entender as causas moleculares da esquizofrenia é o primeiro passo para se buscar um tratamento específico para a doença.

Referência

CARREL, D. et al. Nitric Oxide Synthase 1 Adaptor Protein, a Protein Implicated in Schizophrenia, Controls Radial Migration of Cortical Neurons. Biological Psychiatry, v. 77, n. 11, p. 969–978, 2014.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Sala de cinema da Torre: “O Menino da Internet: A História de Aaron Swartz”


“O Menino da Internet: A História de Aaron Swartz” é um excelente documentário de 2014, escrito e dirigido por Brian Knappenberger. O filme conta a história do programador e ativista americano Aaron Swartz.

Seu pai era dono de uma empresa de software e, desde muito jovem, Swartz se interessou por computação e esteve envolvido com a programação e a Internet. Exemplos? Em 2000, Swartz tinha 13 anos e foi o mais jovem ganhador do prêmio ArsDigita, dedicado a jovens que criaram páginas não-comerciais úteis, educacionais e colaborativas. Swartz construiu a “The Info Network”, uma enciclopédia online que pode ser considerada uma pré-Wikipédia. Com 14 anos, ele ajudou no desenvolvimento da tecnologia de RSS, que permite hoje que usuários se inscrevam em blogs (como esse) e outros sites com constante atualização, para receber novos conteúdos diretamente, sem precisar visitá-los um a um. E com 15 anos, Swartz participou ativamente da criação da Creative Commons, ONG dedicada à flexibilização dos direitos autorais, visando permitir acesso do público a obras criativas de modo legal, reduzindo o impacto da pirataria.

Mais? Já estudando em Stanford, Swartz participou do desenvolvimento da rede social Reddit. E construiu a OpenLibrary, com o objetivo de ser uma biblioteca virtual e colaborativa onde todos os livros estariam disponíveis a qualquer pessoa.

Pelo seu histórico, podemos perceber que Swartz sempre esteve preocupado que a Internet fosse um ambiente de conhecimento livre, onde todo mundo tivesse acesso a todo tipo de informação e dados. Por isso, Swartz foi um ativista que lutou pela liberdade na rede, sendo, por exemplo, líder na luta contra o projeto de lei SOPA do congresso americano.

Mas o que a história de Swartz tem a ver com Ciência, além de passar pela computação e tecnologia? O seu final.

Quando um grupo de cientistas produz resultados significativos, eles organizam esses dados em uma comunicação à comunidade científica, um artigo científico a ser publicado. Se o artigo for aprovado para publicação, com base na sua qualidade e relevância, ele tem dois caminhos básicos: (1) ser publicado de forma aberta, onde os pesquisadores arcam com os custos da publicação e com o lucro da editora. Isso normalmente sai por uma bagatela entre mil e dois mil dólares; ou (2) ser publicado da forma tradicional, onde os pesquisadores não pagam pela publicação, mas os leitores interessados pagam para ler. O custo médio de um artigo gira em torno de 30 dólares. Ou seja, dessa última forma, o conhecimento científico gerado fica restrito há uma pequena parcela que pode pagar. As universidades de países desenvolvidos e uma parte das de países em desenvolvimento tem acesso, mesmo que só a uma parte dos artigos científicos, pago pelas próprias universidades ou pelo governo do país. As universidade federais brasileiras têm acesso aos artigos de algumas editoras científicas através do Periódicos CAPES, programa do Governo Federal, por exemplo. O acesso pelo público geral fica quase totalmente proibitivo. Swartz era contra isso.

Ele então criou o programa simples, que baixava e salvava em um disco rígido um a um todos os artigos disponíveis no sistema JSTOR, um banco de dados americano que armazena os artigos científicos. Swartz carregou o programa e o disco rígido na rede de servidores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que tinha acesso ao JSTOR, e começou a copiar o banco de dados. É possível que Swartz quisesse disponibilizar os artigos livremente na rede quando a duplicação do banco de dados terminasse, mas ele não teve oportunidade. A JSTOR identificou o acesso anormal aos dados e Swartz foi preso, acusado de roubo de dados, com pena possível de 35 anos e um milhão de dólares em multas. Ele se enforcou antes de ser julgado, em 2013. Hoje faz parte do Hall da Fama da Internet. 

O documentário foi produzido com apoio de financiamento coletivo e está disponível no YouTube de graça, como Aaron Swartz gostaria.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Beijo de língua é cientificamente nojento!


O Dia dos Namorados foi na semana passada e vários casais apaixonados passaram a noite de sexta-feira juntos. Quem estava solteiro, aproveitou que era sexta para tentar se arranjar. Mas o fato é: um casal troca oito milhões de bactérias por segundo entre as suas línguas durante um beijo íntimo. Essa é uma das conclusões de um estudo publicado por cientistas holandeses (KORT et al., 2014). Mas por que esses pesquisadores foram estudar as bactérias da boca dos casais?

A ideia era estudar a microbiota, ou seja, o conjunto de bactérias presente nas bocas das pessoas e saber se a microbiota oral de casais que se beijam com mais frequência é mais parecida entre si o que em casais, digamos, não tão apaixonados. As bactérias da boca podem ser importantes para a saúde oral, e ter influência sobre os dentes, por exemplo. Além disso, o beijo (e a troca de saliva e microbiota) pode ter tido papel importante no desenvolvimento do comportamento de corte dos seres humanos, já que somos os únicos animais que fazemos isso.

Os cientistas identificaram os principais gêneros de bactérias presentes na boca dos voluntários e depois descobriram que os casais compartilham parte da microbiota presente na língua. Porém, as bactérias coletadas da parede interna das bochechas eram menos parecidas. Além disso, os casais que se beijavam com mais frequência tinham microbiotas mais parecidas, como os pesquisadores hipotetizaram.

Esse estudo pode parecer totalmente inútil, e da forma como os autores discutiram os resultados obtidos, ele realmente é. Porém, o papel da microbiota no metabolismo do nosso corpo sofreu grandes mudanças nos últimos anos. As bactérias passaram de simples hóspedes no nosso intestino para participantes em processos de doenças, como o diabetes. Um estudo publicado no ano passado mostrou que o uso de adoçantes artificiais pode aumentar os riscos do desenvolvimento de diabetes (SUEZ et al., 2014). De quem é a culpa? Mudanças no perfil da microbiota intestinal. E nesse ano, outro estudo descobriu uma correlação entre o consumo de emulsificantes, aditivos alimentares presente nas comidas industrializadas, e o diabetes e a obesidade (CHASSAING et al., 2015). Culpa de alterações nas bactérias no seu intestino.

Os cientistas holandeses mostraram agora que, embora a microbiota oral de casais seja parecida, não é fácil que as bactérias de uma boca se instalem na outra. Mas, e esse isso acontecer? E se a microbiota intestinal dos casais, que além de se beijarem, também vivem juntos, e assim, dividem talheres, banheiros e outras coisas, também for mais parecida? Em outras palavras, será que uma pessoa pode “contaminar” o seu par com a sua microbiota intestinal? Se for possível, será que um diabético pode transmitir sua doença? Ou uma pessoa saudável pode curar seu par doente? Muitas coisas a serem investigadas.

P.S.: Outra conclusão do trabalho, e que não tem a ver com as bactérias, foi a de que os homens mentem. (OK, isso pode parecer meio óbvio para algumas mulheres...) Os voluntários do estudo responderam a um questionário sobre a frequência com que beijavam o seu par. Os pesquisadores concluíram que a maioria dos homens (75 % deles) diziam que beijavam suas namoradas mais vezes do que elas diziam que eram beijadas. Um malandro chegou a dizer que beijava o seu par 50 vezes por dia, enquanto o par respondeu que era beijada apenas oito! O cara aumentou seu índice de beijos em quase cinco vezes! A mesma conclusão (homens mentem!) foi tirada em um estudo sobre comportamento sexual, onde os homens aumentam para cima o número de parceiras e frequência com que fazem sexo (SMITH, 1991). Cuidado com eles, meninas!

Referências

CHASSAING, B. et al. Dietary emulsifiers impact the mouse gut microbiota promoting colitis and metabolic syndrome. Nature, v. 519, n. 7541, p. 92–96, 2015.

KORT, R. et al. Shaping the oral microbiota through intimate kissing. Microbiome, v. 2, p. 41, 2014.

SMITH, T. W. Adult sexual behavior in 1989: number of partners, frequency of intercourse and risk of AIDS. Family Planning Perspectives, v. 23, n. 3, p. 102–107, 1991.

SUEZ, J. et al. Artificial sweeteners induce glucose intolerance by altering the gut microbiota. Nature, v. 514, n. 7521, p. 181–186, 17 set. 2014.