quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Mais um pouco sobre cosméticos e animais


Cruzei de novo pela Internet com um abaixo-assinado virtual sobre o uso de animais em teste de cosméticos. Esse abaixo-assinado pressiona a Avon a acabar com os testes em animais. Em Abril do ano passado, eu já escrevi um longo texto sobre a importância do uso de animais de laboratório no desenvolvimento de novas formulações de cosméticos. Se você não leu, recomendo que dê uma lida antes de continuar aqui. Não vou reescrever todos os argumentos de novo aqui, mas vou tentar mostrar que esse caso explica claramente que a indústria de cosméticos está mais preocupada com o seu dinheiro do que com os bichos.

A Avon foi, segundo ela mesma, a primeira empresa a estabelecer uma política para abolir os testes com animais.

Ué? Então para que o abaixo-assinado? Porque alguns países exigem que os cosméticos sejam testados em animais, independente se foram testados por métodos alternativos aprovados. Segundo a própria Avon, apenas 0,3 % dos seus produtos vendido pelo mundo são testados em animais devido às leis dos países onde são comercializados. Se considerarmos que esses produtos são responsáveis por 0,3 % dos faturamentos da Avon (uma estimativa que pode ser longe da realidade), eles rendem a empresa modestos 27 milhões de dólares por ano (se comparado aos nove bilhões de dólares de faturamento total).

Então, por que a Avon simplesmente não abre mão desses países em prol do seu ideal de não usar animais? Porque um desses países é a China, um mercado consumidor de um bilhão e 300 milhões de pessoas. Imagine a quantidade de dinheiro que espera a Avon nesse um sexto de população mundial. Se a China obrigasse o CEO da Avon a testar seus produtos na sua mãe de cabeça para baixo, era capaz de ele aceitar.

Esse abaixo-assinado deveria ser direcionado ao Presidente chinês, cobrando que seu país não obrigue que os produtos sejam testados em animais e aceite os métodos alternativos já aprovados pela comunidade científica, e não à Avon. Aliás, o abaixo-assinado é direcionado a David Legher, presidente da Avon no Brasil. Eu entendo pouco de administração de empresas, mas acho que o presidente no Brasil não é a pessoa que decide sobre os negócios de uma empresa americana na China.

O abaixo-assinado foi iniciado por Leonardo Bezerra, fundador da ONG (eu acho) Infoanimal. Não consegui descobrir nada sobre o Sr. Bezerra. Como é recorrente nas ONG de proteção animal, suas páginas não informam sobre seus líderes ou integrantes de um conselho de administração, e suas formações. Ou sobre quem os financia.

A Infoanimal se descreve com um grupo de ciberativismo e seus objetivos são, em grande parte, nobres, incluindo fim do uso de peles em vestuário, promoção da adoção de animais e abolição dos rodeios. O tema da experimentação animal na Ciência não consta na lista. Mas, cá entre nós, fazer campanha contra a feijoada não deve conseguir muitos adeptos. 
P.S.: Tem uma coisa que eu insisto em repetir: se os métodos alternativos são “mais baratos, mais seguros e mais eficientes”, por que a indústria de cosméticos insiste em usar animais? Por puro sadismo? Não! Usam porque eles ainda são necessários em algumas etapas.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Acabando com as bactérias super-resistentes



O surgimento e a proliferação das superbactérias é um grande problema para a saúde pública. O aparecimento dessas bactérias que sobrevivem a diferentes antibióticos acontece devido ao uso errado ou indiscriminado dos próprios antibióticos.

Como funciona? Digamos que você esteja com uma dor de garganta e o médico te receita um antibiótico para ser tomado por sete dias. Mas depois de quatro dias, você já não tem mais os sintomas da infecção e para de tomar o remédio. Não ter mais dor de garganta não quer dizer que o antibiótico matou todas as bactérias; na verdade ele apenas reduziu bastante a população delas, mas deixou viva uma pequena parte, que era naturalmente um pouco mais resistente que o resto. Pode ser que essa pequena população de bactérias volte a crescer na sua garganta, causando um novo episódio de dor e um novo ciclo de tratamento com antibiótico. Se você não tomar o remédio do modo certo de novo, novamente uma parte mais resistente da população de bactérias vai sobreviver e voltar a crescer. Depois de algum tempo, o antibiótico não vai nem fazer cócegas na sua dor de garganta e você vai ter que tomar remédios mais fortes.

Tomar antibióticos errados ou sem necessidade tem efeito similar sobre o surgimento de bactérias super-resistentes. Por isso, hoje os antibióticos só são vendidos com receita médica. Um agravante é causado pela biologia das bactérias: elas são capazes de passar cópias de seus genes para outras bactérias da população, espalhando a resistência aos antibióticos ainda mais rápido.

A indústria farmacêutica e grupos de pesquisa pelo mundo vêm tentando descobrir novas classes de antibióticos para vencer a luta contra as bactérias super-resistentes, mas isso tem se mostrado lento, caro e com pouco sucesso. Porém, uma nova técnica de biologia molecular pode mudar a forma como tratamos infecções bacterianas ou como lidamos com as bactérias no meio ambiente. Isso foi mostrado por pesquisadores americanos em um trabalho publicado no ano passado.

Os cientistas usaram um método recém-descoberto que é capaz de “apagar” genes de organismos de forma muito específica, usando um tipo de RNA. Os pesquisadores modificaram em laboratório vírus que infectam especificamente bactérias (chamados de bacteriófagos). Esses bacteriófagos carregavam e transmitiam para as bactérias infectadas RNAs desenhados especialmente para desligar seus genes.

Que genes eram esse? Na verdade, qualquer gene pode ser um alvo, e essa é a graça desse sistema. Primeiro, os cientistas usaram como alvos genes que tornavam as bactérias resistentes a antibióticos da classe da ampicilina e as bactérias ficaram pelo menos mil vezes mais sensíveis a droga. Depois, os pesquisadores “apagaram” o gene que tornava as bactérias resistentes a antibióticos da classe da quinolona. O resultado foi ainda melhor; bactérias 10 mil vezes mais sensíveis. O efeito é bem rápido; em cerca de 1 hora, 99 % das bactérias já tinham morrido.

Como isso foi feito em culturas de bactérias, os cientistas verificaram o efeito sob um organismo infectado. Não foram usados nem humanos, nem camundongos, mas lagartas de mariposa! O dobro de insetos tratados com os bacteriófagos após a infecção sobreviveu quando comparados com as lagartas não tratados.

A técnica não será útil apenas no tratamento de infecções, mas também poderá ser usada para retirar do ambiente especificamente as bactérias não desejadas. No laboratório, os cientistas cultivaram três bactérias juntas e, usando os bacteriófagos, foram capazes de eliminar uma delas sem interferir com as outras.

Embora o estudo ainda seja inicial, é animador pensar que poderemos no futuro “deletar” a resistência a antibióticos das bactérias. O que não quer dizer que podemos usar esses remédios de modo errado e irresponsável.

Referência

CITORIK, R. J.; MIMEE, M.; LU, T. K. Sequence-specific antimicrobials using efficiently delivered RNA-guided nucleases. Nature Biotechnology, 32, 11, 1141–1145, 2014.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Novo método de identificação de DNA pode mudar transplantes e investigações criminais


Se você tem menos de vinte anos e é fã de CSI (qualquer um), provavelmente pensou em ser perito criminal da polícia civil. Mas, infelizmente, aquilo não passa de ficção e as investigações criminais por todo mundo estão longe de terem toda aquela tecnologia. Por exemplo, os assassinos teriam muito tempo para fugir se dependesse das evidências de DNA encontradas na cena do crime. No CSI, o cabelo do suspeito é colocado em uma máquina (que não existe) e a identidade do assassino sai em questão de minutos. No mundo real, o DNA do cabelo do suspeito teria que ser extraído em um processo cuidadoso para evitar danos e contaminação do material genético. Se houver DNA suficiente, esse seria então amplificado no laboratório e em seguida analisado e comparado com um banco de dados. O processo levaria, na melhor das hipóteses, alguns dias (isso se nada der errado no processo, fazendo com que ele volte para o início). Se a amostra tiver DNA de duas pessoas, já era; fica basicamente impossível identificar o assassino (na vida real, claro; no CSI, uma super-máquina separaria os DNAs rapidamente).

Desistiu de ser perito? Calma! Pesquisadores americanos publicaram no ano passado um método de identificação (quase) digno do CSI. Atualmente, as pessoas são identificadas através do DNA por regiões do genoma chamadas de microssatélites. Esses microssatélites parecem não ter função no DNA e são muito variáveis, em termos de tamanho, entre os indivíduos. Assim, cada pessoa no mundo tem um padrão único de tamanhos de microssatélites e é possível ligar cada DNA a seu dono. Os testes de paternidade funcionam da mesma forma; o filho em questão vai ter uma combinação do padrão de microssatélites do pai e da mãe. Se o moleque não tiver algum microssatélite que não vem da mãe ou do suspeito pai, o cara se livra da pensão. Mas essas análises enfrentam os problemas acima: as amostras de DNA precisam estar em boas condições e quantidade, puras, e o processo é demorado. O que os pesquisadores americanos exploraram então foi uma diferença ainda mais abundante entre o DNA das pessoas: diferenças pontuais na sequência do genoma (os chamados SNPs).

Mas para isso, é preciso sequenciar o DNA das pessoas diretamente (como o filme Gattaca, mas obviamente não tão fácil e rápido, ainda). Isso só se tornou possível porque os custos para se sequenciar DNA caíram rapidamente com o surgimento de novas tecnologias, chamadas de sequenciamento de nova geração (não tão rapidamente quanto o preço do petróleo...). Assim, os cientistas escolheram uma região específica do DNA humano onde são conhecidas 17 mutações pontuais na sequência, o que dá um grande número de possíveis combinações. E eles conseguiram identificar o DNA onde ele era 0,01 % do total da amostra, fazendo desse método pelo menos 100 vezes mais sensível do que o que usa os microssatélites. Além disso, como as amostras têm as sequências lidas e não dependem de um perfil de tamanho, mesmo DNA contaminados com outros materiais genéticos podem ser analisados. Por exemplo, se dois suspeitos deixam amostras de DNA no mesmo local, ambos podem ser identificados.

Além de auxiliar na investigação criminal, o novo método também pode mudar a forma de avaliar transplantes de órgãos e medula óssea. Hoje, o principal tratamento para alguns tipo de leucemia é o transplante de medula, quando existe um doador compatível. Depois, a presença de células cancerígenas poderá ser mais facilmente detectada com o novo método. Já no transplante de órgãos sólidos, quando há suspeita de rejeição, o paciente precisa passar por uma biópsia invasiva; o novo método de identificação de DNA poderá fazer o mesmo com um simples exame de sangue.

Se cuida, CSI!

Referência
 

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O remédio da maconha funciona?


Eu usei esse título simplesmente para chamar a sua atenção, porque ele é muito ruim. Porém, é assim que a mídia brasileira produz as suas chamadas quando o assunto é o canabidiol (esse é o princípio ativo do “remédio da maconha”; já tinha ouvido esse nome?): “Justiça autoriza remédio derivado da maconha para menina...”, “Remédio derivado da maconha é usado para tratar...”, “Remédio à base de maconha alivia epilepsia em crianças...”, e por aí vai. Ser derivado da maconha deveria ser levado em consideração para liberar ou não um medicamento? Se ele fosse produzido a partir de pétalas de rosas brancas, suco de tangerina ou bosta de cavalo, isso deveria importar (ou causaria tanta repercussão da mídia?)? A resposta é simples: não! Para um remédio ser liberado para uso, o que importa é se ele é seguro e se ele funciona, independente da sua fonte. E isso eu não vi sendo informado pela mídia ou pelas pessoas passando abaixo-assinados virtuais pela liberação do uso do canabidiol. A propósito, se o canabidiol funcionou no filho da Dona Maria ou na filha do Seu José, isso não quer dizer que ele necessariamente funciona. Um remédio precisa ser testado em um grande grupo de pacientes, de forma controlada, para que sua eficácia seja definida. Então a pergunta que eu fui tentar responder foi: isso já foi feito?

Mas primeiro, o que é o canabidiol? Ele é seguro? Dá onda? O canabidiol é o principal de quase uma centena de substâncias canabinóides encontradas na maconha. Ele é cerca de 40 % do extrato de canabinóides da planta. Porém, o canabidiol não é o responsável pelos efeitos “de onda” do consumo da maconha, que são causados por outro composto, chamado tetrahidrocanabinol (ou THC). O THC é muito mais estudado que o canabidiol e muitas informações estão disponíveis sobre a sua ação no cérebro. Por exemplo, sabemos onde, nas células do cérebro, o THC se liga (nos chamados receptores CB1). Já o modo de ação do canabidiol ainda é bem menos claro. Porém, o canabidiol não tem os efeitos psicoativos do THC e, pelo contrário, parece inibir “a onda” causada pelo THC.

Existem poucas dúvidas de que o canabidiol possua efeitos antiepiléticos em diferentes modelos animais. Mas os estudos em humanos ainda são muito primários. Um levantamento da literatura científica mostrou que o canabidiol foi testado de forma controlada em apenas uma centena de adultos e crianças com diferentes graus de crises epiléticas. Se todos os estudos forem levados em consideração, 61 % dos pacientes apresentaram algum tipo de melhora. Isso indica duas coisas: primeiro, o canabidiol parece funcionar para algumas pessoas, mas mais estudos são necessários para entender como ele age no cérebro e porque ele trata apenas parte dos pacientes; e segundo, que o canabidiol está longe de ser o remédio milagroso que a mídia tenta pintar. Um problema extra é que o estudo com o maior número de pacientes (cerca de 25 % deles) foi feito pela GW Pharma, a empresa que comercializa o canabidiol nos Estados Unidos. Se eu fosse vender alguma coisa para vocês, é claro que eu iria fazer a melhor propaganda possível. Por isso, é preciso ter um pouco de cuidado ao se analisar esse estudo em especial.

Como não existe nenhum estudo independente e em grande escala sobre os efeitos antiepiléticos do canabidiol, é muito difícil tirar qualquer conclusão sobre o assunto. Mas pelo menos dois grandes estudos para verificar a ação do canabidiol em pacientes com Síndrome de Dravet (uma doença causada por mutações em genes específicos e que gera um grave quadro de epilepsia) serão iniciados em breve e assim teremos respostas mais claras em um futuro próximo. Felizmente, o canabidiol parece ser seguro, visto que pouquíssimos efeitos colaterais graves foram observados nesses pequenos estudos.

A ANVISA recentemente retirou o canabidiol da lista de substâncias proibidas e o escreveu como substância controlada (uma decisão acertada, na minha opinião). Isso vai facilitar que os pais com receita médica para canabidiol possa comprar o remédio legalmente. Mas é importante que a qualidade do canabidiol importado seja rigidamente controlada visto que o composto é purificado diretamente da maconha e pode vir contaminado com THC (e isso pode fazer os pacientes verem macacos em cima do poste). Porém, a liberação da ANVISA vai ajudar acima de tudo as pesquisas científicas brasileiras sobre o canabidiol. Antes os cientistas teriam que importar o composto ilegalmente se quisessem estudar seus efeitos, e como era ilegal, teriam que fazer isso com o seu próprio dinheiro e pela sua conta e risco. Agora estudos clínicos sérios vão poder ser realizados aqui e com pacientes brasileiros, o que vai nos dar respostas ainda mais claras.

Um grande avanço para a pesquisa brasileira e uma grande esperança para os pacientes e suas famílias.

Referência