terça-feira, 31 de outubro de 2017

Uma miniaula de microbiologia: o caso do “arroz contaminado”


Há algum tempo atrás, circulou no Whatsapp um boato dizendo que universitários teriam contaminado plantações de arroz no Brasil com vírus e bactérias capazes de infectar o estômago e causar a morte de quem comesse. O governo escondeu o caso porque não teria dinheiro para retirar os microrganismos. Obviamente, o cidadão, que descobriu o segredo no melhor estilo “James Bond”, caridosamente pede que você espalhe isso para o maior número de pessoas.

Sério: por que essas pessoas inventam esse tipo de abobrinha? Essa “fan fiction” é curta, mas não o suficiente para não ter um monte de problemas, de verossimilhança com a realidade e científicos. Por exemplo, por que o governo simplesmente não joga o arroz fora? Ele é de fato tão estúpido que prefere ter uma epidemia de uma doença mortal? Ou por que raios os universitários iriam cometer tal ato de bioterrorismo? Seria tipo um trote, “os calouros que não contaminarem o arroz vão ficar carecas”? Não faz nenhum sentido.

Mas, digamos que fosse uma forma de protesto extremamente radical e sequelado contra os cortes do orçamento para investimentos em Ciência e Tecnologia (por favor, não encarem isso como uma sugestão!), seria possível contaminar uma plantação de arroz com um microrganismo mortal?

Seria muito difícil. Começando por qual microrganismo usar para contaminar a plantação. Segundo o boato, a doença começa com uma infecção no estômago. O problema que o estômago é um ambiente bem ingrato para bactérias ou vírus crescerem porque é muito ácido. Por isso, há pouco tempo atrás se imaginava que o estômago era um local livre de bactérias. Até a descoberta da Helicobacter pylori (já contei a história da descoberta dela aqui). Então a H. pylori seria a escolha? Uma escolha ruim. Mais de metade das pessoas já estão contaminadas com a bactéria, mas a grande maioria nunca vai ficar doente por isso. Uma pequena parte pode ter úlceras (que é uma ferida na parede do estômago, que dói bastante) e uma menor ainda pode acabar com câncer no estômago. Ou seja, a H. pylori está longe de ser uma bactéria mortal e logo não vai ser muito eficiente em matar pessoas.

Esquecendo então a história de infectar o estômago, os terroristas poderiam pensar em alguma outra doença, que se pega pela comida. Talvez a bactéria Escherichia coli fosse usada. A infecção por alguns tipos dessa bactéria podem causar infecções intestinais com diarreia. Algumas vezes a doença pode ser bem grave e levar a morte, mas é raro e ocorre mais em crianças pequenas e idosos. As pessoas se contaminam com a E. coli principalmente através da água contaminada (bebendo, lavando comida com ela ou tomando banho) e carne malcozida e leite fresco. Mas essa bactéria não viveria muito tempo no ambiente exposto de uma plantação de arroz, no máximo uma semana. No tempo entre a contaminação da plantação até o arroz chegar a sua casa, provavelmente a bactéria já teria morrido. Além disso, essa bactéria é pouco resistente ao calor; assim possivelmente o calor do cozimento do arroz seria capaz de matar o microrganismo e impedir a infecção (ninguém come arroz cru, certo?).

Outras possibilidades seriam a bactéria Salmonella e o vírus Norovirus. Esses dois até poderiam sobreviver mais tempo no ambiente da plantação e contaminar os sacos de arroz. Mas eles também costumam contaminar as pessoas através de alimentos crus (o Norovirus também pode passar de pessoa para pessoa). Assim, o arroz cozinhado direito teria uma chance bem pequena de contaminar alguém.

A melhor opção seria a bactéria Bacillus cereus. Essa bactéria já está normalmente associada ao arroz e outros cereais, e a infecção causa náusea, vomito e diarreia. E esse microrganismo tem algumas características que lhe dão um potencial de infecção maior que os outros da lista. Primeiro, essa bactéria é capaz de se transformar em uma forma resistente a altas temperatura e que sobrevive por longos períodos, chamada endósporo. Além disso, a B. cereus produz proteínas tóxicas chamadas enterotoxinas, que podem ser extremamente resistentes a altas temperaturas e ambientes ácidos (como o estômago). Assim, os endósporos podem sobreviver ao cozimento do arroz e depois começar a se multiplicar na panela, especialmente se a comida for deixada fora da geladeira. Quem comer o arroz então pode ter a infecção. E mesmo que o cozimento mate todas as bactérias, se elas já tiverem produzido as enterotoxinas, a pessoas que consumir o arroz pode ter os sintomas. Mas a doença raramente é fatal; a maioria dos doentes melhora após 24 horas.

Mudando um pouco mais a história original então: digamos que os universitários decidiram contaminar a plantação com B. cereus para deixar pessoas doentes (já que matar não vai dar). Como contaminar uma plantação inteira? Primeiro, os universitários terroristas precisam conseguir a bactéria. Estando em uma universidade pode parecer fácil; de fato cientistas em várias partes do Brasil estudam a B. cereus. Porém, muitos desses pesquisadores fazem análises epidemiológicas apenas, ou seja, procuram pela presença da bactéria em alimentos vendidos e em pacientes. Não necessariamente esses laboratórios vão ter amostras da bactéria estocadas. O segundo ponto, e talvez mais crítico, é como cultivar uma quantidade suficientemente grande de bactérias para contaminar uma plantação inteira. Esqueça essas coisas de filme de ficção científica; o vilão não vai chegar com um tubinho de laboratório no bolso, abrir, jogar numa planta e ver as bactérias se espalhando pelo terreno, enquanto ele ri de modo sinistro. Os terroristas iriam precisar crescer um caminhão-pipa de bactérias. Isso vai ser caro, com grande gasto de dinheiro em meios de culturas para crescer as bactérias e com equipamentos industriais com um imenso volume de produção. E eles vão precisar usar algo pouco discreto para espalhar as bactérias, tipo um caminhão tanque do corpo de bombeiros, um avião borrifador daqueles de agrotóxicos, ou um exército de universitários com aquelas máquinas borrifadoras. O que nos leva ao terceiro problema: como contaminar a plantação sem que nenhum funcionário da fazenda perceba?

Bem difícil. Talvez uma solução fosse não contaminar a plantação, mas sim os silos (aqueles locais onde os grãos ficam armazenados). Muito arroz, já colhido, tudo junto, em um local pequeno (ou, pelo menos, menor que uma plantação), fechado e abrigado do sol, da chuva e do vento. Seriam necessárias menos bactérias para contaminar todo o estoque e daria para ser feito de modo mais discreto.
Bem, vou parar de dar ideia para outras “fanfics” ou para terroristas de verdade (talvez devesse começar a escrever meus próprios livros de ficção; pelo menos eles seriam verossímeis). Mas espero ter convencido vocês que essa história de contaminar plantação de arroz é uma grande viagem.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Florais de Bach e suas baboseiras


Atendendo um pedido que chegou por e-mail (se você tem alguma sugestão de pauta, pode deixar nos comentários de qualquer postagem, ou escrever para a gente em aportademarfim@gmail.com), fui investigar os verdadeiros efeitos dos tratamentos com florais de Bach.

Os florais de Bach têm esse nome devido ao seu criador, Edward Bach, um homeopata inglês que desenvolveu esses tratamentos na década de 1930. Ele criou 38 florais usando flores diferentes, com a ideia de que cada planta seria capaz de ajudar com determinada característica mental do paciente. Por exemplo, o floral de agrimônia é usado para promover a paz e leveza interior, enquanto o floral feito com a flor da parreira ajuda pessoas dominadoras a controlar seu ímpeto de se impor sobre as outras. Para chegar a essas associações entre flor e sintoma a ser trabalhado, Bach usou a sua intuição e não o método científico com experimentos. Se ele tinha um sentimento ou emoção ruim, ele passava a mão sobre diferentes plantas e flores, até chegar a uma que aliviasse tal emoção. E a associação estava feita: aquela flor era descrita como benéfica para tratar aquele sentimento.

Os florais são misturas de conhaque com materiais derivados de flores diluídos muitas, muitas, muitas, muitas vezes. É tão diluído que não tem nem mais cheiro de flor. Segundo Bach, os extratos florais manteriam as propriedades curativas das plantas. A diluição extrema do extrato vem da formação homeopata de Bach. Mas a água onde os extratos foram diluídos manteriam as propriedades de cura pelos conceitos da medicina vibracional e de memória da água, coisas também pregadas pela homeopatia (que a gente já discutiu em outra postagem). Nenhuma dessas hipóteses tem qualquer valor científico, o que coloca o tratamento com florais de Bach no saco de pseudociências.

Mas mesmo que isso tudo possa ser verdade, os florais de Bach têm qualquer efeito sobre a saúde? De modo geral, não. Alguns artigos científicos revisaram o que já foi publicado sobre os efeitos dos florais de Bach sobre problemas psicológicos, como ansiedade, transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, estresse e depressão, e sobre dor. Todos concluíram que o tratamento não tem nenhum efeito além do placebo (ou seja, tomar floral de Bach ou água achando que é floral de Bach tem o mesmo efeito) sobre os sintomas (ERNST, 2002, 2010; PINTOV et al., 2005; THALER et al., 2009; WALACH; RILLING; ENGELKE, 2001). Porém, recentemente, um trabalho de cientistas cubanos mostrou que o tratamento com florais de Bach reduziu a dor em pacientes com síndrome do túnel carpal, que causa dormência, formigamento e dor, principalmente nos dedos da mão (RIVAS-SUAREZ et al., 2017). O problema é que dois dos pesquisadores que escreveram o trabalho têm relação com uma organização que divulga os benefícios do tratamento com florais de Bach. Esse conflito de interesses reduz o valor científico do trabalho; ou você acha que alguém que vende uma cura vai dizer que a cura não funciona?

Em conclusão, ainda não se mostrou que o tratamento com florais de Bach tenha qualquer benefício sobre a saúde.

Referências:

ERNST, E. “Flower remedies”: a systematic review of the clinical evidence. Wiener Klinische Wochenschrift, v. 114, n. 23–24, p. 963–966, 2002.

ERNST, E. Bach flower remedies: a systematic review of randomised clinical trials. Swiss Medical Weekly, v. 140, p. w13079, 2010.

PINTOV, S. et al. Bach flower remedies used for attention deficit hyperactivity disorder in children - A prospective double blind controlled study. European Journal of Paediatric Neurology, v. 9, n. 6, p. 395–398, 2005.

RIVAS-SUAREZ, S. R. et al. Exploring the Effectiveness of External Use of Bach Flower Remedies on Carpal Tunnel Syndrome: A Pilot Study. Journal of Evidence-Based Complementary & Alternative Medicine, v. 22, n. 1, p. 18–24, 2017.

THALER, K. et al. Bach Flower Remedies for psychological problems and pain: a systematic review. BMC Complementary and Alternative Medicine, v. 9, n. 1, p. 16, 2009.

WALACH, H.; RILLING, C.; ENGELKE, U. Efficacy of Bach-flower remedies in test anxiety: A double-blind, placebo-controlled, randomized trial with partial crossover. Journal of Anxiety Disorders, v. 15, n. 4, p. 359–366, 2001.

Profissão Cientista #9: Dia de Ciência na E.M. Tenente Antônio João

O nosso projeto de extensão "Dia de Ciência com a Faculdade de Farmácia da UFRJ" também passou pela Escola Municipal Tenente Antônio João, na Ilha do Fundão, Rio de Janeiro, no ano passado. Filmei as atividades e fiz um resumo para vocês. Assista e confira!


Gostou? Curta e compartilhe o vídeo, e se inscreva no canal!
Quer mais? Visite o blog (http://aportademarfim.blogspot.com.br/), curta a fanpage no Facebook (/aportademarfim) e siga a gente no Twitter (@aportademarfim)!

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Ganhando peso com a idade? Culpa do macrófago!

Resultado de imagem para obesity elderly

Você já teve a impressão de que, quanto mais velho, mais fácil de engordar? Pois é, essa sensação já foi comprovada cientificamente. No seu corpo, sua gordura fica normalmente armazenada em células especializadas, chamadas de adipócitos, que formam o tecido adiposo. Essas células são responsáveis por estocar o conteúdo de gordura proveniente da alimentação, para posterior utilização quando necessário (por exemplo, no jejum). Quando há necessidade, a gordura (estocada na forma de triglicerídeos) no interior dos adipócitos é quebrada e então liberada na corrente sanguínea para utilização por outros tecidos. Este processo chama-se lipólise, e é altamente regulada por hormônios e neurotransmissores, dentre eles a noradrenalina (responsável pela palpitação observada quando tomamos um susto, por exemplo).

Mas afinal, por que temos facilidade de ganhar peso quando envelhecemos? Cientistas americanos demonstraram que o culpado pode ser uma célula conhecida do sistema imune: os macrófagos. Utilizando modelo de camundongos, os cientistas observaram que os macrófagos (células sentinelas do sistema imune) que estão no tecido adiposo, com o avançar da idade, têm aumento de um grupo de proteínas importante, chamado de inflamassomo. O inflamassomo é o responsável por aumentar a quantidade de proteínas responsáveis por degradar a noradrenalina, como a monoamino oxidase A (MAO-A). Este resultado é interessante, visto que uma classe de medicamentos muito conhecida tem como alvo esta enzima: os antidepressivos. Para confirmar os efeitos observados, os cientistas trataram animais ‘’idosos’’ com um antidepressivo (inibidor da MAO-A), e adivinha: quantidade de noradrenalina no tecido adiposo foi restaurada, a sinalização deste neurotransmissor foi reativada, e as enzimas importantes para a lipólise foram recuperadas. Com isso, os animais apresentaram maior lipólise e diminuição no estoque de gordura.

Esses resultados ajudam a explicar os mecanismos associados com o ganho de peso em idosos. A relevância pode ser enorme. A proporção de pacientes obesos e que são idosos é bem significante (OGDEN et al, 2013). O sobrepeso é um fator de risco para o desenvolvimento de diversas doenças, como pressão alta e diabetes. Além disso, pacientes idosos, já fragilizados, perdem qualidade de vida quando também são obesos. Assim, este trabalho propõe um novo alvo para um possível tratamento da obesidade em idosos. Esse trabalho fala para você tomar antidepressivos para emagrecer? NÃOOOOO! É possível que, em algum tempo, novos estudos demonstrem que o uso de inibidores específicos da MAO-A tenham EFICÁCIA e principalmente SEGURANÇA ao levar uma possível perda de peso em idosos. Até lá, quando você se olhar no espelho e achar que engordou, culpe seu macrófago.

Referências:

Camell C.D. et al, Inflammasome-driven catecholamine catabolism in macrophages blunts lipolysis during ageing, Nature, 550(7674):119-123, 2017.

Ogden C.L. et al, Prevalence of obesity among adults: United States, 2011-2012, NCHS Data Brief, (131):1-8, 2013. 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Refrigerante pode ser ruim, mas câncer ele não causa


Recebi mais um vídeo (pelo menos esse era curto), dessa vez com um trecho da entrevista do palestrante Tiago Rocha para o programa “Primavera Saúde”, da TV Primavera de Criciúma, afiliada a Rede Internacional de Televisão. Rocha diz para a entrevistadora que o consumo de refrigerantes é a principal causa do surgimento de câncer nas pessoas. Nas palavras dele: “três de cada 10 tumores é causado pelo refrigerante”. Será? Vamos analisar.

Começando pelo sujeito: quem é Tiago Rocha? Eu não conseguir achar um currículo propriamente dito de Rocha (nem o Currículo Lattes, que é a base de dados de currículos de cientistas brasileiro, coordenada pelo Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento, CNPq). No seu site, Rocha diz que é naturologista, cientista ambiental e especialista em medicina natural. Não sabe o que é isso? Eu também não sabia e fui pesquisar. A naturologia (medicina natural acaba sendo a mesma coisa) é um ramo da medicina alternativa que prega a cura natural por métodos sem qualquer evidência científica de que funcionem. Existem duas faculdades de naturologia credenciadas no Ministério da Educação, que basicamente ensinam aos alunos pseudociências, como cura por cheios (aromaterapia), por cores (cromoterapia) ou banhos de mar (talassoterapia). Já cientista alimentar é uma especialização que só Rocha tem; até onde eu sei Ciência Alimentar não existe. Existe Ciência dos Alimentos, que estuda a composição, processamento, deteorização de alimentos de modo geral. Acho que não era isso que Rocha queria dizer.

O argumento de Rocha para dizer que os refrigerantes causam câncer é o fato de eles serem ácidos e que o câncer cresce em ambientes ácidos. Se isso fosse verdade, limonada suíça também causaria câncer, porque ela é tão ácida quanto os refrigerantes. E se o ambiente ácido causasse câncer, tumores no estômago seriam os mais comuns. Mas é comum encontrar esse mito da relação entre câncer e acidez na Internet, muitas vezes citando o cientista alemão Otto H. Warburg. Warburg teria dito que “nenhuma doença, inclusive o câncer, não pode existir em ambiente alcalino”. Não sei se de fato ele disse isso, mas é fato que nem você pode viver em um ambiente alcalino, ou ácido. A acidez do seu sangue é finamente controlada pela respiração e pelos rins. Se esse equilíbrio for quebrado e o seu sangue ficar um pouco mais ácido ou alcalino, você vai morrer. Uma dica: ter ganhado o Prêmio Nobel não te exime te falar besteiras.

Bem, o argumento de Rocha pode não ter fundamento, mas talvez os refrigerantes possam causar câncer por outro motivo. O que diz a Ciência? É possível que o rebuliço sobre a relação entre câncer/refrigerante tenha surgido em 2006, com a publicação de um estudo onde cientistas italianos trocaram a água de ratos de laboratório por refrigerante. Ou seja, os animais só bebiam refrigerante a vida inteira, o que é muito mais extremo que o estilo de vida da maioria das pessoas. Os pesquisadores viram um aumento nos casos de câncer de mama e pâncreas nos ratos (BELPOGGI et al., 2006). Depois disso, vários grupos de pesquisa pelo mundo foram verificar relações entre o desenvolvimento de tumores e consumo de refrigerante em pessoas. Antes de continuar, é bom explicar que o câncer é na verdade um “saco de gatos” de doenças; um câncer de pulmão pode ser bem diferente de um câncer de mama. Na verdade, mesmo câncer de pulmão podem ser doenças diferentes em diferentes pessoas. Então é importante analisar cada tipo de câncer separadamente.

A relação mais confusa é com o câncer de pâncreas. Em 2005, pesquisadores associaram o consumo de refrigerante comum (uso comum para os refrigerantes adoçados com açúcar) com câncer de pâncreas em mulheres sobrepesadas (“gordinhas”) e obesas ou que faziam pouco exercício (SCHERNHAMMER et al., 2005). O problema é que pessoas obesas e que não fazem exercício já têm um risco maior que ter câncer, então é difícil estimar o impacto dos refrigerantes. Outros trabalhos conseguiram mostrar uma relação entre câncer de pâncreas e consumo de refrigerantes: um, uma relação pequena (GENKINGER et al., 2012); outro, um efeito importante (MUELLER et al., 2010). Por outro lado, dois outros trabalhos não acharam relação entre essas duas coisas (GALLUS et al., 2011; NAVARRETE-MUÑOZ et al., 2016). Dessa forma, é prematuro dizer que o refrigerante causa câncer de pâncreas.

Apenas um estudo investigou a relação com câncer de fígado. Os pesquisadores encontraram uma associação entre o consumo de refrigerante zero com tumores de fígado na Europa (STEPIEN et al., 2016).

Estudos olhando para câncer de intestino (ZHANG et al., 2010) ou de ovário (LEUNG et al., 2016) não acharam relação com o consumo de refrigerantes.

Por outro lado, dois diferentes trabalhos mostram que o consumo de refrigerantes pode reduzir o risco do aparecimento de câncer de esôfago, embora alguns problemas nesses estudos possam ter facilitado esse resultado não esperado (IBIEBELE et al., 2008; MAYNE et al., 2006).

Em conclusão, não podemos dizer que “três de cada 10 tumores” tem relação com o consumo de refrigerantes. A única relação mostrada foi do refrigerante zero com câncer de fígado, que está longe de ser um dos mais comuns. Isso que dizer que você está liberado para encher a cara de refrigerante? Não. Os refrigerantes comuns têm uma quantidade muito alta de açúcar, o que vai ajudar você a ganhar peso, e a obesidade vem acompanhada de muitas doenças. Os refrigerantes zero não têm açúcar, mas são cheios de adoçantes. E pesquisas mais recentes indicam que o consumo desses adoçantes pode facilitar o surgimento de diabetes (que é a incapacidade do corpo de controlar os níveis de açúcar do sangue). Prefira água! Mas, não podemos assustar as pessoas com mentiras, né, Sr. Rocha?

Referências

BELPOGGI, F. et al. Results of long-term carcinogenicity bioassays on Coca-Cola administered to Sprague-Dawley rats. Annals of the New York Academy of Sciences, v. 1076, p. 736–752, 2006.

GALLUS, S. et al. Soft drinks, sweetened beverages and risk of pancreatic cancer. Cancer Causes and Control, v. 22, n. 1, p. 33–39, 2011.

GENKINGER, J. M. et al. Coffee, tea, and sugar-sweetened carbonated soft drink intake and pancreatic cancer risk: A pooled analysis of 14 cohort studies. Cancer Epidemiology Biomarkers and Prevention, v. 21, n. 2, p. 305–318, 2012.

IBIEBELE, T. I. et al. Cancers of the esophagus and carbonated beverage consumption: A population-based case-control study. Cancer Causes and Control, v. 19, n. 6, p. 577–584, 2008.

LEUNG, A. C. Y. et al. Tea, coffee, and caffeinated beverage consumption and risk of epithelial ovarian cancers. Cancer Epidemiology, v. 45, p. 119–125, 2016.

MAYNE, S. T. et al. Carbonated soft drink consumption and risk of esophageal adenocarcinoma. Journal of the National Cancer Institute, v. 98, n. 1, p. 72–75, 2006.

MUELLER, N. T. et al. Soft drink and juice consumption and risk of pancreatic cancer: The singaporechinese health study. Cancer Epidemiology Biomarkers and Prevention, v. 19, n. 2, p. 447–455, 2010.

NAVARRETE-MUÑOZ, E. M. et al. Sweet-beverage consumption and risk of pancreatic cancer in the European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition (EPIC). American Journal of Clinical Nutrition, v. 104, n. 3, p. 760–768, 2016.

SCHERNHAMMER, E. S. et al. Sugar-sweetened soft drink consumption and risk of pancreatic cancer in two prospective cohorts. Cancer Epidemiology Biomarkers and Prevention, v. 14, n. 9, p. 2098–2105, 2005.

STEPIEN, M. et al. Consumption of soft drinks and juices and risk of liver and biliary tract cancers in a European cohort. European Journal of Nutrition, v. 55, n. 1, p. 7–20, 2016.

ZHANG, X. et al. Risk of colon cancer and coffee, tea, and sugar-sweetened soft drink intake: Pooled analysis of prospective cohort studies. Journal of the National Cancer Institute, v. 102, n. 11, p. 771–783, 2010.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Por que o vírus não mata o mosquito?


Os mosquitos transmitem diversos vírus para os humanos, esses vírus geram sintomas como cansaço, dores, entre outros que te deixa de cama e levar até morte. Quando um mosquito pica uma pessoa doente, ele se infecta com o vírus e depois de algum tempo, pode transmitir para outras pessoas. Mas já que o mosquito se infecta com vírus, porque não fica doente como nós?

A resposta para essa questão pode estar contida no modo como o organismo do mosquito combate o vírus. Diferente de nós, o sistema imune dos mosquitos não é tão especializado e suas células de defesa não produzem citocinas (mediadores químicos) para combater o vírus. Em nós humanos, as células do sistema imune produzem diversas citocinas, que ao mesmo tempo que combatem o vírus também provocam alguns dos sinais e sintomas que apresentamos.

Apesar de não terem esses mediadores químicos, os vírus não se replicam sem controle nos mosquitos. Os mecanismos antivirais dos mosquitos são compostos basicamente pela imunidade celular, que são mecanismos intracelulares que tentam impedir a instalação do vírus nas células (PRASAD; BRACKNEY; EBEL, 2013). Mas esses mecanismos não são tão eficientes assim, sendo capazes apenas de limitar a replicação do vírus a níveis não danosos para o mosquito. Esse fato já foi provado por diversos estudos em que os pesquisadores geraram mosquitos com deficiência nos mecanismos antivirais e observaram que os vírus se replicaram rapidamente no organismo do mosquito (XI; RAMIREZ; DIMOPOULOS, 2008) (SÁNCHEZ-VARGAS et al., 2009). Uma observação interessante é que a replicação descontrolada do vírus diminui a capacidade de transmissão pelo mosquito, mostrando que esses mecanismos antivirais são importantes para a sobrevivência do mosquito, mas também ajudam na transmissão do vírus para o hospedeiro vertebrado (CIRIMOTICH et al., 2009).

Esses mecanismos antivirais dos mosquitos se baseiam em receptores de membrana celular e RNA de interferência (RNAi).

Os receptores celulares são responsáveis por reconhecer proteínas virais que se ligam a ele. Com isso, promovem a ativação de vias de sinalização dentro da célula, levando a produção de pequenas proteínas que agem contra o vírus (PRASAD; BRACKNEY; EBEL, 2013). No entanto, a ação por esses receptores parece ser específica para cada tipo de vírus e alguns estudos indicam que algumas dessas vias nem sempre agem como mecanismos antivirais (FRAGKOUDIS et al., 2008). Além disso, os conhecimentos sobre os mecanismos antivirais via receptores celulares ainda são limitados, de forma que algumas vias de sinalização antivirais são conhecidas, mas o receptor que a ativa ainda não (CHENG et al., 2016).

Em comparação com dos receptores, os RNAi são mais extensamente estudados e possuem alguns de seus mecanismos de ação mais bem entendidos. Diferentemente dos RNAs codificantes, que transportam o código genético do DNA e são os responsáveis por sintetizar proteínas na célula, os RNAi tem ação inibitória dos RNAs codificantes, ou seja, impedem a síntese de proteínas. No entanto, esse processo é direcionado a RNA codificantes específicos e assim à síntese de proteínas específicas. Nos mosquitos infectados, eles são direcionados para inibir a síntese de proteínas virais e assim conter a disseminação do vírus. O sinal para a produção de RNAi são RNAs de fita dupla no citoplasma da célula, que em geral são observados em casos de infecção viral. Em uma condição normal não se encontra material genético dupla fita no citoplasma (lembrando que o DNA é fita dupla, mas fica no núcleo) de células de eucariotos, no entanto, quando as células do mosquito são infectadas por vírus, esses vírus inserem seu material genético no citoplasma. As células do mosquito reconhecem os RNAs dupla fita virais como sinal de perigo e ativam os RNAi para combater a infecção (OLSON; BLAIR, 2015).

Desta forma, os RNAi são os principais mecanismos de defesa contra infecção viral nos mosquitos, no entanto, se pensarmos que esses mecanismos possuem eficiência total, o resultado óbvio seria a eliminação do vírus e assim fim do ciclo viral. Bom, sabemos que não é bem assim que acontece, e isso se deve a mecanismos virais de evasão dos RNAi’s. Semelhante a resposta do mosquito, a evasão do vírus também é parcial, mantendo assim um equilíbrio entre os mecanismos antivirais do mosquito e a evasão desses mecanismos pelo vírus (BLAIR; OLSON, 2015). O equilíbrio é essencial tanto para a sobrevivência do mosquito, como para a manutenção do ciclo viral. Esse equilíbrio não é por acaso, provém de um longo processo de co-evolução entre o mosquito e o vírus (BLAIR; OLSON, 2015) (SIM; JUPATANAKUL; DIMOPOULOS, 2014). A manutenção do ciclo viral depende da manutenção também da capacidade de mosquito de buscar novos indivíduos para picar. Parece que nessa história só o ser humano é prejudicado. Azar o nosso!

Referências

PRASAD, A. N.; BRACKNEY, D. E.; EBEL, G. D. The role of innate immunity in conditioning mosquito susceptibility to West Nile virus. Viruses, v. 5, n. 12, p. 3142–3170, 2013.

FRAGKOUDIS, R. et al. SemlikiForest virus strongly reduces mosquito host defence signaling. Insect Molecular Biology, v. 17, n. 6, p. 647–656, 2008

OLSON, K. E.; BLAIR, C. D. Arbovirus–mosquito interactions: RNAi pathway. Current Opinion in Virology, v. 15, p. 119–126,2015.

XI, Z.; RAMIREZ, J. L.; DIMOPOULOS, G. The Aedes aegypti toll pathway controls dengue virus infection. PLoSPathogens, v. 4, n. 7, 2008.

CHENG, G. et al. Mosquito defense strategies against viral infection. Trends Parasitology, v. 32, n.3, p. 177-186, 2016.

BLAIR, C. D.; OLSON, K. E. Therole of RNA interference (RNAi) in Arbovirus – Vector Interactions. Viruses,v. 7, n. 2, p. 820–843, 2015.

SIM, S.; JUPATANAKUL, N.; DIMOPOULOS, G. Mosquito Immunity against Arboviruses. Viruses, v. 6, n. 11, p. 4479–4504,2014.

SÁNCHEZ-VARGAS, I. et al. DengueVirus Type 2 Infections of Aedes aegypti Are Modulated by the Mosquito's RNA Interference Pathway. PLoS Pathogens, v. 5, n. 2, 2009.

CIRIMOTICH, C. M. et al. Suppression of RNA interference increases alphavirus replication and virus-associated mortality in Aedes aegypti mosquitoes. BioMed Central Microbiology, v. 9, n. 49, 2009.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Fadiga adrenal: uma doença que não existe


Em um episódio do programa Salutis, coordenado por João Carlos Baldan, o Dr. José Roberto Kater diz que a fadiga adrenal só é diagnosticada no sétimo médico. Mas o que é a fadiga adrenal e por que é difícil para o médico descobrir a doença? A resposta é simples: porque ela não existe.

A fadiga adrenal foi inventada em 1998 pelo quiroprático (a quiropraxia é um ramo da medicina alternativa que mistura o uso de energia vital com massagens e banhos de gelo para tratar problemas musculares; uma prática sem nenhuma comprovação científica que pode ser tema de outra postagem) James Wilson como uma hipótese para explicar uma mistura de sintomas, como cansaço, indisposição e fraqueza sem explicação, dificuldade de acordar de manhã, e outras coisas mais subjetivas, como vontade de tomar café e de comer doce. Segundo essa hipótese, esses sintomas são explicados por uma redução ou desregulação na produção de cortisol (um hormônio importante do corpo, responsável por várias coisas como a resposta ao estresse, medo, infecções) pelas glândulas adrenais (daí o nome da doença, a fadiga adrenal seria o "cansaço" da glândula, que diminuiria a produção de cortisol). A quantidade de cortisol que é produzida e circula no sangue varia durante o dia; ela aumenta logo depois que acordamos pela manhã, e vai diminuindo durante o passar do dia. Segundo a hipótese da fadiga adrenal, as pessoas doentes tem um aumento menor do hormônio pela manhã ou esse aumento só aparece no final do dia, o que explicaria porque essas pessoas ficam cansadas durante o dia, mas acordadas à noite. Quais dados científicos suportam essa hipótese? Aparentemente, nenhum.

Em 2016, uma dupla de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo publicou um trabalho de revisão, onde 58 artigos científicos foram analisados (CADEGIANI; KATER, 2016). Os cientistas buscaram evidências de relação entre os níveis de cortisol e os sintomas de cansaço. Apenas 23 % dos trabalhos conseguiram mostrar que, nas pessoas doentes, o nível de cortisol estava menor, 30 minutos depois do despertar pela manhã (os outros 77 % mostraram que o nível era igual ou até mesmo maior). Do mesmo modo, apenas 27 % dos estudos viram um aumento do hormônio à noite. Ou seja, mesmo que a tal fadiga adrenal exista, ela explica menos de 30 % dos casos de modo geral (guardem essa informação; isso vai ser importante mais para baixo).

Eu não estou dizendo que as pessoas que tem um cansaço persistente e não conseguem sair da cama são preguiçosas e sem vergonhas. Elas podem estar de fato doentes, mas não com fadiga adrenal. A Síndrome da Fadiga Crônica é uma doença reconhecida, porém as suas causas ainda são desconhecidas, mas com certeza são várias, e talvez a produção de cortisol possa ser uma delas (mas não a única). Uma origem auto-imune, quando as células de defesa do corpo começam a agir contra o próprio corpo, é a explicação com mais suporte científico (MORRIS; ANDERSON; MAES, 2017). Essa doença é definida por um cansaço persistente (por seis meses ou mais), que não é causado por exercícios e que não melhora com repouso.

Será que existe alguma relação entre a Síndrome da Fadiga Crônica e os níveis de cortisol? Será que a fadiga adrenal é a explicação? Também parece que não. Trabalhos científicos dos anos 2000 propuseram que a produção de cortisol estava envolvida no processo, mas não com um papel central (VAN DEN EEDE et al., 2007). E que talvez a falta do hormônio tivesse importância no estágio final da doença (CLEARE, 2004). Mas o consenso era que a relação cortisol/fadiga variava de pessoa para pessoa e que muitos outros fatores estavam envolvidos (CLEARE, 2003). De fato, assim como no trabalho brasileiro de 2016, um artigo em 2001 mostrou que apenas um terço dos estudos via redução dos níveis de cortisol em pessoas com Síndrome da Fadiga Crônica, e em apenas um terço dos pacientes (PARKER; S.; CLEARE, 2001). Um estudo mais recente mostrou que os níveis de cortisol no despertar podem sim estar mais baixos em pessoas com a Síndrome, mas ele foi incapaz de mostrar que as duas coisas estão de fato associadas (POWELL et al., 2013). A hipótese mais recente é que a Síndrome da Fadiga Crônica cause uma redução na taxa de cortisol, e não o contrário, e logo a redução do hormônio seria um sintoma da doença e não a causa (MORRIS; ANDERSON; MAES, 2017). Por isso, a simples medida dos seus níveis de cortisol, seja no sangue ou na saliva, de manhã, de tarde, de noite ou de madrugada, não pode ser usada como base para indicar fadiga adrenal ou Síndrome da Fadiga Crônica (ABDULLA; TORPY, 2017). E aí está o maior problema.

O sétimo médico do Dr. Kater, que falou para você que você tem fadiga adrenal, vai lhe receitar uma reposição hormonal e mandar você manipular hidrocortisona em uma farmácia de manipulação (ele vai falar que é hormônio bioidêntico, uma palavra bonita para não lhe assustar). Só que nenhum artigo científico mostrou que o uso de reposição hormonal tem um grande efeito benéfico sobre o cansaço; o efeito é no máximo limitado e não foi comprovada vantagem em fazer esse tipo de tratamento (ABDULLA; TORPY, 2017; SMITH et al., 2015; WHITING et al., 2001). O melhor tratamento é com base comportamental, como estimular o paciente a fazer exercícios e terapia psicológica (WHITING et al., 2001). Além disso, o uso errado dessa reposição hormonal (peguem a informação que eu pedi para vocês guardarem: mesmo que a fadiga adrenal existisse, ela só explicaria 30 % dos casos) tem graves efeitos negativos, como aumento da pressão, aumento do peso, aumento da glicose no sangue, alteração de humor e perda de massa dos ossos. Mesmo que a falta de cortisol fosse a causa da doença, a reposição hormonal não seria recomendada (PAPADOPOULOS; CLEARE, 2011). E, o uso prolongado pode acabar prejudicando as glândulas que produzem o cortisol e causar uma doença (que sim existe) grave: a insuficiência adrenal.

A insuficiência adrenal não é um nome mais científico para a fadiga adrenal; a insuficiência adrenal pode acontecer depois que a pessoa enfrenta situações extremas, como um acidente ou infecção severa. Ela sim é uma redução grande dos hormônios produzidos pelas glândulas adrenais, como o cortisol e a aldosterona. Os sintomas são muito piores que preguiça para levantar da cama; incluem dor forte na barriga, vômitos, fraqueza muscular, cansaço, depressão, pressão muito baixa, problemas nos rins, entre outros. Existe um risco sério de vida se não for tratada.

Ou seja, se só o sétimo médico descobre uma doença que não existe, estamos bem; seis médicos estão certos (ou, pelo menos, não estão errados).

Referências

ABDULLA, J.; TORPY, B. D. J. Chronic Fatigue Syndrome. In: Endotext.

CADEGIANI, F. A.; KATER, C. E. Adrenal fatigue does not exist: a systematic review. BMC Endocrine Disorders, v. 16, n. 1, p. 48, 2016.

CLEARE, A. J. The neuroendocrinology of chronic fatigue syndrome. Endocrine Reviews, v. 24, n. 2, p. 236–252, 2003.

CLEARE, A. J. The HPA axis and the genesis of chronic fatigue syndrome. Trends in Endocrinology and Metabolism, v. 15, n. 2, p. 55–59, 2004.

MORRIS, G.; ANDERSON, G.; MAES, M. Hypothalamic-Pituitary-Adrenal Hypofunction in Myalgic Encephalomyelitis (ME)/Chronic Fatigue Syndrome (CFS) as a Consequence of Activated Immune-Inflammatory and Oxidative and Nitrosative Pathways. Molecular Neurobiology, v. 54, p. 6806–6819, 2017.

PAPADOPOULOS, A. S.; CLEARE, A. J. Hypothalamic–pituitary–adrenal axis dysfunction in chronic fatigue syndrome. Nature Reviews Endocrinology, v. 8, n. 1, p. 22–32, 2011.

PARKER, A. J.; S., W.; CLEARE, A. J. The neuroendocrinology of chronic fatigue syndrome and fibromyalgia. Psychological Medicine, v. 31, n. 8, p. 1331–1345, 2001.

POWELL, D. J. H. et al. Unstimulated cortisol secretory activity in everyday life and its relationship with fatigue and chronic fatigue syndrome: A systematic review and subset meta-analysis. Psychoneuroendocrinology, v. 38, n. 11, p. 2405–2422, 2013.

SMITH, M. E. B. et al. Treatment of myalgic encephalomyelitis/chronic fatigue syndrome: A systematic review for a National Institutes of health pathways to prevention workshop. Annals of Internal Medicine, v. 162, n. 12, p. 841–850, 2015.

VAN DEN EEDE, F. et al. Hypothalamic-pituitary-adrenal axis function in chronic fatigue syndrome. Neuropsychobiology, v. 55, n. 2, p. 112–120, 2007.